Sociedade Ordo Templi Orientis no Brasil®




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SERVIÇOS DE INTELIGÊNCIA NÃO SÃO INTELIGENTES

 

ou

 

A O. T. O. DESDE A MORTE DE CROWLEY

 

 

 

PARTE I

 

NOTA EDITORIAL: Esta história foi inteiramente escrita por Marcelo Ramos Motta. Porém, a fim de clarificar o assunto para os leitores mais sérios, comentários que explicam o texto, mas que foram fruto de pesquisa posterior, estão grafados em caracteres de estilo itálico. A matéria no texto em caracteres normais menciona o Sr. Motta sempre na terceira pessoa do singular. Isto não deve contundir os leitores. Foi feito para manter perspectiva.

Todos os fatos relatados, por incríveis que possam parecer, estão completamente documentados. Temos em mãos o inteiro registro, por escrito, de intriga, perseguição e vigarice. Levou quase vinte anos para reunir a evidência. Interessados em examiná-la com seus próprios olhos poderão obtê-la custeando as despesas de copiagem. Devemos fazer notar que existem mais de quatro mil páginas de documentos, incluindo os processos na assim-chamada "justiça" norte americana, através dos quais multas das provas foram extraídas dos intrujões daquele país com repetidas intimações judiciais.

No dia 29 do dezembro do 1941 e. v. J. Edgar Hoover, então diretor do F.B.I. (Federal Bureau of Investigations — equivalente do S.N.I. brasileiro) mandou a seguinte diretiva ao Agente Especial Encarregado na cidade de Nova Iorque:

Re: Karl Johannes Germer

Segurança Interna — C

Caro senhor:

Estão sendo transmitidas com esta, cópias fotostáticas de um resumo de informações recebidas através do (CENSURADO) a respeito da pessoa nomeada acima.

O senhor deverá, portanto, instituir um inquérito apropriado dos antecedentes e das atividades de Germer, que segundo a informação reside no presente na Avenida Lexington 1.007, Nova Iorque, Estado de Nova Iorque. Este inquérito deve ter preferência sobre todos os outros e merecer especial atenção a fim de que um relatório completo possa ser submetido e chegar ao Bureau rapidamente.

Sinceramente seu,

John Edgar Hoover,

Diretor

A seção nova-iorquina do Bureau obedientemente instituiu a investigação requerida. Nada de natureza subversiva foi identificado, e isto foi comunicado a Hoover que, enfurecido, escreveu-lhes novamente um ano depois, a 24 de fevereiro do 1942 e.v.:

Os senhores receberam ordens de instituir um inquérito apropriado dos antecedentes e das atividades de Germer, e os senhores foram instruídos de que este inquérito deveria ter tratamento preferencial e contínua atenção a fim de que o relatório desejado por mim chegue (sic) ao Bureau sem mais delongas. Eu espero rígida obediência aos meus desejos neste caso.

Para qualquer estudioso imparcial da história do F.B.I. sob Hoover nos seus últimos anos de vida, o que estava escrito entre as linhas desta segunda diretiva era que o Diretor tinha um motivo pessoal de animosidade por Germer e queria que seus subordinados fornecessem evidência contra ele de qualquer forma; mesmo que tal evidência tivesse que ser fabricada. Hoover era um católico romano com estreitos laços com a hierarquia vaticana nos EE. UU. Ele era também secretamente um homossexual, o que explica porque o F.B.I. tornou-se tão pudico durante o seu reinado, o Diretor não tolerava qualquer atividade sexual fora dos "santos laços", etc., quer nos seus subordinados, quer no resto da nação.

Uma investigação foi novamente instituída assim que os pobres agentes, sobrecarregados de trabalho em tempo de guerra puderam destacar alguém para tratar do que eles sabiam perfeitamente ser um caso sem qualquer importância fora da mente de Hoover. Foi descoberto que Germer ainda vivia no endereço da Avenida Lexington com sua esposa, uma cidadã americana. Ele disse aos agentes que estivera num campo de concentração nazista em 1935 e.v. durante cinco meses, sob a acusação de ser maçom; que lhe haviam concedido liberdade condicional e que escapara para a Bélgica; que da Bélgica ele fora para as Ilhas Britânicas, mas havia sido expulso de Dublin, Irlanda, em 1937 e.v., a pedido especial do embaixador da Alemanha...

O Sr. Germer estava por essa época já muito bem familiarizado com investigações de polícias secretas. Ele sabia perfeitamente que o inquérito que o F.B.I. tinha encetado contra ele havia sido instigado por interesses católicos romanos, portanto absteve-se de mencionar que a Irlanda era fanaticamente cristista e romanista, e que este fora o real motivo de sua expulsão do país. É possível que o embaixador da Alemanha tenha pedido a expulsão dele: muitos nazistas eram católicos romanos. Mas ele foi expulso porque estivera tentando estabelecer a O.T.O. naquela terra selvagem. Ele foi um homem da máxima coragem moral.

...que ele então passara algum tempo em Londres; e que de 1937 e.v. a 1940 e.v. passara a maior parte do seu tempo na Bélgica como vendedor de maquinaria. Em 1940 e.v. ele fora novamente preso, por ordem do governo belga...

Desta vez sua prisão fora realmente exigida pelos nazistas, cuja marcha através da Europa pusera a Bélgica em posição delicada.

...e subseqüentemente transferido para um campo de concentração francês...

A França perdera a guerra contra os nazistas e havia sido forçada a instituir campos de concentração no modelo de Hitler. De Gaulle estava na Inglaterra, tentando organizar os Franceses Livres.

...de onde ele fora libertado em meados de 1941 e.v., quando sua esposa obtivera para ele um visto de imigração que possibilitou sua entrada nos EE. UU.

Como esposo de uma cidadã americana, por lei, o visto lhe concedia entrada imediata no país. Esta foi a segunda esposa do Sr. Germer, nome de solteira Cora Eaton, membro de uma família americana abastada. O Sr. Germer casou-se três vezes: sua primeira e terceira esposa eram judias.

A residência do casal Germer foi revistada pelo F.B.I., sob o pretexto de que uma busca geral por agentes inimigos estava sendo efetuada na área. Foi encontrada uma volumosa correspondência com um certo Aleister Crowley. O Sr. Germer explicou que estava tentando obter um visto de imigração que permitisse a esse Crowley vir viver nos Estados Unidos.

Londres estava sob constante bombardeio aéreo e Crowley em completa miséria. A Sra. Germer estava tentando ajudar o marido a obter um visto para o "pior homem do mundo".

O Sr. Germer declarou além disto que Crowley, que era um astrólogo e escritor, mandara livros no valor de milhares de dólares para os EE. UU., que ele, Germer, e (CENSURADO) de Los Angeles estavam vendendo para juntar dinheiro pare mandar para Crowley a fim de ajudar o autor a sobreviver na na Inglaterra.

O nome censurado neste documento (obtido através do Ato de Livre Informação passado no governo Carter, e que o governo Reagan está agora tentando revogar) era o de um Irmão da O.T.O. chamado Max Schneider. Os "milhares" de livros foi um exagero para tentar impressionar os agentes. Havia, porém, pelo menos novecentas cópias sem capas do Livro Quatro Parte IV, "O Equinócio dos Deuses", que o Sr. Germer estava lentamente vendendo através da Livraria Samuel Weiser.

Germer além disto negou ter quaisquer simpatias nazistas ou qualquer contato com organizações clandestinas pró-nazistas nos Estados Unidos.

Durante a breve estadia do Sr. Germer em Londres ele tentara interessar vários jornais na publicação de suas memórias do campo de concentração na Alemanha nazista, em que ele descrevia a maneira como judeus, ciganos, comunistas, homossexuais e nazistas que haviam se voltado contra a política do partido, eram tratados pela SS. Todos os jornais, inclusive o "Times", se recusaram a publicar isto. Dois anos depois, a Inglaterra se veria forçada a declarar guerra à Alemanha do Hitler.

As informações obtidas através deste interrogatório e desta invasão de domicílio foram obedientemente transmitidas a Hoover, o qual imediatamente enviou uma carta, pessoal e confidencial por mensageiro especial", a Adolf A. Berle, Jr., Ministro do Exterior Assistente e outro católico romano. A carta enfatizava a importância que Hoover dava ao assunto pelo uso e abuso de letras capitais:

... Durante uma investigação relativa à Segurança Interna da Nação foi averiguado que Karl Johannes Germer, um estrangeiro nascido na Alemanha...

Deliberadamente incorreto. O Sr. Germer já era, na época, cidadão americano naturalizado.

... que entrou nos EE.UU. pela última vez a 31 do março de 1941, e que reside com sua esposa na Avenida Lexington 1007 em Nova Iorque, Estado de Nova Iorque, tem mantido considerável correspondência com AIiester (sic) Crowley de Londres, cuja entrada nos EE.UU. Germer está tentando efetuar. Eu creio que o senhor estaria interessado em ter à sua disposição um sumário da informação recebida de uma fonte insuspeita quanto a esse Crowley...

A maior parte da Informação numa carta de "fonte insuspeita" de Hoover, o F.B.I. recusou fornecer (o documento, uma fotocópia, está coberta de tinta preta e indecifrável em muitos parágrafos); mas pode-se facilmente imaginar de que constava. Uma pequena seção que não foi censurada mostra que o informante escrevia com urna caligrafia elegante e provavelmente feminina. Os trechos a descoberto afirmam que Germer tinha sido posto num campo de concentração por traduzir ao idioma alemão os livros do notório autor inglês Aleister Crowley. Também afirmam que Crowley fora expulso da Alemanha (falso) e que tanto Crowley quanto Germer haviam sido expulsos da França por praticar "magia negra" (falso). A carta prossegue dizendo que a missivista estava preocupada porque a conversação de Germer era "violenta propaganda nazista"...

Esta última asserção era, está claro, uma mentira deliberada e ferina. Eu me correspondi com o Sr. Germer durante nove anos, fui hóspede dele e da terceira Sra. Germer durante uma semana na residência de ambos, encontrei-me com ele pessoalmente três vezes após isto para discutir assuntos iniciáticos tanto da A\ A\ quanto da O.T.O. Ele nunca expressou outra coisa que desprezo pelos nazistas, e estava absolutamente convencido de que Crowley destruira Hitler magicamente. A identidade da pessoa que escreveu esta carta criminosa nos é desconhecida até hoje: o F.B.I. está acobertando o nome dele ou dela. Evidência interna, entretanto, sugere que se tratava de uma amiga da segunda Sra. Germer que vivia em Buffalo, Estado de Nova Iorque, que tinha tendências ao lesbianismo e que odiava o Sr. Germer com um ciúme doentio. Isto é indicado pelo fato de que, como parte de sua "evidência", ela forneceu uma cópia de uma carta de Cora Germer a ela, em que a Sra. Germer com delicadeza defende o marido contra acusações de explorá-la financeiramente, e que termina com estas palavras: "Cuide-se bem e encontre alguém de quem você goste — homem ou mulher. Amor, Cora."

... e "ele tem um poderoso rádio de ondas curtas"...

Claro, os Germers, ambos os quais falavam o francês, o alemão e o inglês, estavam ansiosos para saber de primeira mão o que estava acontecendo na Europa. O rádio fora examinado pelo F.B.I., e averiguado ser um receptor, não um transmissor, como a informante dera a entender.

Mas o propósito velado da inteira investigação instigada por Hoover sempre fora tornar impossível para o Sr. Germer trazer Aleister Crowley para os EE. UU. Não era a "segurança nacional" do país em guerra que Hoover estava, neste caso, interessado em promover: ele estava simplesmente violando a liberdade religiosa dos EE. UU. e abusando dos poderes do seu cargo para promover os "interesses" da Igreja Católica Romana.

A informante fechara a carta com as seguintes palavras.

"Eu não gostaria de ter meu nome publicado neste assunto, caso os senhores investiguem. Sinceramente, (CENSURADO)."

É prática invariável do F.B.I., da C.I.A., e de assim-chamados "serviço de inteligência" no mundo inteiro, não publicar os nomes dos seus informantes. Isto certamente seria prático, e até ético, fosse o informante um cidadão ou uma cidadã patriótico ou patriótica que revelou a verdade sobre alguma traição ou crime. Mais o F.B.I., a C.I.A. e o resto escondem o nome mesmo quando a pessoa está tentando arruinar a vida de outros a quem odeia e dando falsas informações ao governo. Temos assim a interessante situação de que, sob a desculpa de servir a nação, agentes federais encorajam atos contra as leis da nação, cometem ilegalidades eles mesmos, e assim criam eventualmente o tipo de conduta que tornou a Gestapo infame e que por fim derrubou o próprio Hoover da chefia do Bureau. Seus anos mais desprezíveis foram os Cinqüenta, quando ele cooperou com outro católico romano, Joseph McCarthy, para minar as liberdades civis o a ética pública dos EE. UU. ao ponto que tornou possível a eleição, primeiro de um Kennedy, depois de um Nixon, e finalmente de um Reagan ao mais alto cargo da nação.

Sob a pressão constante de Hoover, os agentes a seguir buscaram contato com todo mundo que conhecia os Germers.

A documentação mostra os extraordinários poderes que o F.B.I. — e, por paralelo,

O S.N.I. — pode exercer para invadir a privacidade alheia. Toda fonte de informação possível foi "confidencialmente" entrevistada: senhorios, porteiros fornecedores, conhecidos, sócios, empregadores, e até amigos pessoais. "Confidencialidade" neste senso significa que, se você for acusado de alguma coisa, você nunca saberá a fonte da acusação, freqüentemente não saberá do que foi acusado, e portanto nunca poderá se defender, ou explicar, ou esclarecer. Você estará sempre, além do mais, à mercê dos preconceitos ou das limitações intelectuais e morais de quem quer que, sendo entrevistado por uma organização glamourosa como o F.B.I., decida se tornar um informante permanente sobre a sua pessoa. Afinal de contas, o F.B.I. representa o governo americano! (Sob Hoover, quase se tornou o governo americano.)

A Gestapo foi tão idolatrada pela população alemã nos primeiros anos do nazismo, quanto o F.B.I. eventualmente foi nos EE.UU. durante e depois da segunda Guerra Mundial, sempre sob Hoover. Hoover era um mestre de relações públicas — muito melhor neste ramo do que como investigador. Mas não se está aqui criticando a existência, ou o trabalho normal, do Bureau norte-americano: seu registro, como um todo, não pode com justiça ser comparado ao registro da Gestapo. Mas nos anos cinqüenta o F.B.I. se tornou um instrumento de tirania, e como hábito, bons ou maus, custam a morrer, o F.B.I. tem freqüentemente sido manipulado por interesses escusos mas poderosos desde então. O que aconteceu com a O.T.O. nos Estados Unidos da América é apenas um exemplo de corno uma agência federal pode ser manipulada por interesses privados, e de corno o poder pode corromper até mesmo um burocrata acima da média. Os exatos paralelos do S.N.l. brasileiro deverão ocorrer aos leitores inteligentes.

... Assim, uma certa livraria em Nova Iorque freqüentada pelo Sr. Germer, à qual ele freqüentemente ia para comprar ou vender livros de Aleister Crowley, eventualmente telefonou ao Agente EspecIal Encarregado e ofereceu informações...

Claro, o nome da livraria e dos livreiros informantes foi censurado. Mas devemos comentar que naquela época havia apenas uma livraria especializada em ocultismo importante em Nova Iorque: era a Livraria Samuel Weiser, à qual o Sr. Germer vendeu a maior parte de suas cópias de O Equinócio dos Deuses, e com a qual ele lidou tão freqüentemente quanto pode durante seus últimos anos de vida. O fato de que os Weisers eram judeus parece não ter lhe importado. Certa vez ele escreveu que ele sempre preferia manter relações comerciais com um judeu, do que com um cristista. (O Sr. Germer, aliás, fora criado no catolicismo romano — ou pelo menos assim afirmou numa carta a Motta). Compreensivelmente, ele havia rompido com seus parentes todos muitos anos antes.

... O relatório afirma: "O Sr. (censurado), ao ser entrevistado, revelou que o investigado... freqüentemente vem à loja... que ele comprou os seguintes livros por (Aleister Crowley): "O Livro de Mentiras", um volume de "O Equinócio", "Magia na Teoria e na Prática" e "Nuvens Sem Água"...

Corno se vê, atos altamente subversivos; especialmente o último (o livro é erótico). Mas o que deveria ser notado por leitores sérios é que o ato de comprar um livro por Aleister Crowley era motivo suficiente para o comprador ser denunciado ao F.B.I., e para ter a lista dos títulos comprados registrada pelos agentes como de significado criminal. Era assim que as coisas eram na época, e é assim que elas estão ficando novamente sob Reagan.

... (CENSURADO) tem freqüentemente ouvido falar de Aleister Crowley sendo consultado por Hitler sobre "Magia Negra" (absoluta falsidade, claro; mas talvez antes produto de informação incorreta do que de malicia consciente) e ele tem freqüentemente ouvido Germer afirmar que ele, Germer, crê na ideologia de Hitler...

Esta informação deve ter posto os agentes em polvorosa. Para crédito deles, eles buscaram confirmação de outra fonte. Tornou-se claro que o Sr. Germer dissera que:

... "Ele aceita a ideologia de Hitler apenas em que ele, também, acha que os alemães são uma raça mestra."

A denúncia prévia dizia que o Sr. Germer afirmara que os alemães eram a raça mestra. Uma distinção sutil mais importante.

O Sr. Germer não deveria ter provocado os livreiros judeus, mas podemos visualizar a sua irritação, assim como a do resto do povo alemão hoje em dia, e mesmo de Telemitas que não são alemães, como eu, ao ser acusado de responsabilidade pessoal pelos nazistas! É como se eu fosse um modesto comerciante judeu no Bronx (bairro judeu em Nova Iorque) e o acusasse agressivamente de responsabilidade pessoal pelos atos de Menachem Begin, do Rabino Kahane, de Samir, de Sharon, e do "Profeta" Samuel. Este tipo de coisa pode ser ainda mais irritante se você foi posto num campo de concentração pelo seu próprio governo, e foi expulso de vários países onde o catolicismo romano predomina, por casar com uma judia ou simpatizar com judeus.

Que os alemães são uma raça mestra é inegável. Inegavelmente, também assim são os judeus (usamos a palavra "raça" aqui no mesmo senso demagógico e incorreto em que era usada naquela época de pseudo-antropologia nazista). E os livreiros judeus não podiam esperar que um prussiano provocado, que servira como tenente no exército alemão na Primeira Guerra e fora condecorado por valor no campo de batalha, aturasse meigamente insultos contra seu povo ou sua terra natal; principalmente quando esse prussiano teria sido o primeiro a defender um judeu contra tais insultos na própria Alemanha. Isto é, os livreiros judeus não poderiam esperar isto se eles fossem homens honestos e justos. Infelizmente, esses judeus não eram nem uma coisa nem outra, como o tempo haveria de provar.

Chegados aí, os agentes teriam arquivado o inteiro inquérito se o propósito realmente tivesse sido defender a segurança nacional. Mas Hoover insistiu em seu prosseguimento, porque a verdadeira intenção era colocar os Germers sob uma tal nuvem de suspeitas, insinuações e acusações vagas que se tornasse impossível para eles trazer Crowley para os EE.UU. ou até mesmo viver em paz o resto dos seus dias. Note-se a jóia seguinte:

"... (CENSURADO) está visitando Nova Iorque vindo de (CENSURADO) faz aproximadamente uma semana (CENSURADO)... informou que o investigado recentemente casou com uma senhora chamada Sacha (sic) Ernestine Andra (sic) que era professora de música e que os dois vivem...

"... (CENSURA) informou que ele acredita que a primeira esposa do investigado..."

Não a primeira, a segunda: Cora Eaton.

"... morreu faz algum tempo. Ele informou que, tanto quanto saiba, as atividades do investigado não são de um tipo de levantar suspeitas...".

Isto não deve ter agradado muito a Hoover. Mas havia outros informantes:

"... a 17 do março de 1943 o Informante Confidencial T-2 relatou que Karl Johannes Germer da Rua 71 Oeste N0 133, Cidade de Nova Iorque, recebeu diversas mensagens de Aleister Crowley, de Londres, Inglaterra, de natureza criptográfica. A 9 de abril de 1942 o investigado recebeu a seguinte mensagem do Crowley: 'PALAVRA EQUINÓCIO KUSIS SIGNIFICA GRANDE DEUSA MÃE PONTO ARQUIVO NÃO AQUIOS PONTO PERIQUE RÁPIDO PONTO CEM RECEBIDOS AMOR’..."

Pode-se rir agora deste tipo de coisa; mas considere-se um país em guerra, considere-se a "reputação" cuidadosamente propagandizada de Crowley, e considere-se a reputação do Sr. Germer que Hoover estava cultivando. "Perique" era um tipo de fumo forte para cachimbo que Crowley gostava muito. Os "cem recebidos" eram dólares, não agentes estrangeiros; dólares enviados pelos Germers com grande sacrifício. O "amor" pode ter sido considerado suspeito por Hoover e a hierarquia vaticana; mas, considerando-se a distância entre as partes, podemos tomá-lo corno do tipo que se convencionou chamar de "platônico" mas não é (O que Platão chamava de amor ideal era na realidade o homossexualismo.)

Era muito próprio de Crowley incluir num telegrama — pago com vários dos cem dólares muito necessitados — uma corrigenda da gramática de um discípulo; mas para o F.B.I. em tempo de guerra "Arquivos, não arquios" pode ter soado como um criptograma nazista; e para Hoover, como uma sinistra formula de Magia Negra. Se um homem da inteligência de Crowley podia ocupar seu tempo e seu pouco dinheiro num telegrama transatlântico em tempo de guerra para corrigir um erro ortográfico que era muito possivelmente não devido ao Sr. Germer, mas ao descuido de algum agente telegráfico, por que não poderia o F.B.I. ser infantil também? Quanto a Hoover, paranóia, paranóia...

Vários outros telegramas de aparência sinistra foram igualmente denunciados. De cada vez, Germer era intimado a comparecer para interrogatório e intimado a explicar o significado do texto. Uma dessas mensagens é interessante do ponto de vista desta história. ‘TENTE BUSCA TRANSFERÊNCIA FUNDOS ROY NEGÓCIO PARALISADO ATÉ RECEBIMENTO PONTO SEGUE CARTA RESOLVA ENCRENCA SMITH AMOR’. O relatório prossegue: "O informante diz que o investigado explicou que a mensagem era um pedido para que ele faça o possível para solucionar um problema com um W. T. Smith que é a cabeça da Loja da Ordo Templi Orientis em Pasadena, Califórnia. O investigado disse ao informante que Crowley era o presidente da organização internacional, desse templo"...

Este "Smith" era Wilfred Talbot Smith, que ainda não esposara Helen Parsons; e a "Loja" era a tão-falada "Ágape". "Roy" era ainda outro Irmão, Roy Leffingwell. Podemos sorrir vendo o Sr. Germer tentar traduzir "Cabeça Externa" como "Presidente" para beneficio do informante, que era obviamente um agente telegráfico. Até hoje, aliás, é contra a lei enviar telegramas em cifra nos EE. UU. Esses telegramas não eram cifrados; fossem eles cifrados, não teriam tido uma aparência tão suspeita. É claro que telegramas cifrados são enviados diariamente no mundo inteiro; a maioria por cartéis internacionais. Sem a chave, a aparência deles é sempre inócua.

O relatório continuava: "... Para a informação da Divisão de Campo da Cidade de Albany, foi previamente afirmado que Aleister Crowley, de Londres, é um notório pervertido moral e o investigado está tentando efetuar a entrada dele nos EE. UU."...

Considerando-se que o Diretor do F.B.I. era, pela mesma definição, um pervertido, e não apenas "moralmente", esta era muito boa. Mas pelo menos Hoover comparecia pontualmente à "missa" católica romana aos domingos; usualmente acompanhado pelo seu amante. Ninguém poderia dizer que Aleister Crowley freqüentava "missas" romanas, acompanhado ou não.

Cora Eaton Germer morrera de causas naturais na primeira metade de 1942 e.v., e três meses mais tarde o Sr. Germer esposara Sascha Ernestine Andre Askenazy, uma refugiada judia austríaca. A terceira Sra. Germer provinha de uma família abastada e influente...

Os Askenazy são freqüentemente comparados com outros tipos judios pelos próprios judeus, e com bons motivos, são louros, do olhos claros, de porte aristocrático, artisticamente dotados. Poderiam facilmente passar pelo mítico "tipo ariano" dos nazistas, e muitos deles escaparam do avanço hitlerista disfarçados de alemães "puros". Nunca houve, claro, um "tipo judeu" específico, assim como nunca houve uma "raça judia". Os judeus nunca foram uma raça no sentido científico da palavra: eles foram e continuam a ser um grupo religioso e cultural. Eles nem sequer eram predominantemente semitas, como o tipo ‘Askenazy’ prova abundantemente. O conceito inteiro da "raça judia" foi uma invenção deliberada da propaganda nazista. Foi virando os países que eles conquistavam contra os judeus, que os nazistas sobreviveram e prosperaram por tanto tempo: eles tinham o apoio tácito da Igreja Católica Romana (invariavelmente predominante nesses países — basta citar o caso da Polônia, onde os mais infames entre os campos de concentração nazistas existiram) no seu genocídio. Ironicamente, hoje em dia os sionistas tentam fomentar o conceito de "raça judia" para seus próprios fins.

... ela havia conseguido trazer algum do dinheiro da família consigo para os EE.UU., mas não era rica como fora Cora Eaton; e embora cidadã americana, não era nativa dos EE.UU. Um dos motivos por que o Sr. Germer casou-se novamente em apenas três meses foi que ele estava muito temeroso de ser posto novamente na prisão ou ser deportado justamente quando estava lutando por conseguir asilo para Crowley nos EE.UU. Ele deve ter pressentido que interesses poderosos e sinistros estavam trabalhando para impedi-lo, mas ele pode não ter percebido que um dos mais poderosos homens no país, que dia a dia se tornava mais poderoso ainda, J. Edgar Hoover, estava neutralizando seus esforços a cada passo.

A perseguição continuou incessante. Ao mínimo pretexto, o Sr. Germer era chamado e interrogado pelo F.B.I. A Sra. Germer estava suplementando a modesta renda do casal dando lições de piano: seus alunos e os pais destes eram constantemente visitados por agentes e interrogados sobre ela. Tentava ela abusar dos alunos sexualmente? Dava-lhes drogas? Expressava para eles preceitos imorais? Sabiam os pais que o marido da professora de piano dos seus filhos era um discípulo e amigo do infame satanista e mago negro Aleister Crowley, com justiça chamado em seu próprio país de "o pior homem do mundo"?...

Percebendo que não tinha qualquer chance de trazer Crowley para os EE.UU. sem ajuda, o Sr. Germer apelou para — adivinhem quem — Grady Louis McMurtry. Por essa época a guerra havia terminado; McMurtry estava de volta aos EE.UU., intrigando primeiro contra Wilfred Talbot Smith, depois contra o sucessor de Smith, Jack Parsons.

McMurtry mesmo foi suficientemente estúpido para se gabar por escrito e em público de que participara como informante no inquérito confidencial conduzido contra Parsons. Ele deve ter escondido este fato do Sr. Germer e de Crowley, uma vez que estava violando o Juramento e as Obrigações do IIIº O.T.O., e teria sido sumariamente expulso se eles tivessem sabido do que ele estava fazendo. Mas o Sr. Germer deve ter suspeitado, em vista de um fato que McMurtry nunca deu a público e que expomos aqui pela primeira vez:

Na posição de ex-combatente, ex-oficial, e cidadão nativo americano, McMurtry era justamente a pessoa que poderia ter trazido Crowley para os EE. UU.; e da boca para fora concordou em assim fazer. Aparentemente o Sr. Germer e Crowley pensaram que estava tudo arranjado; mas precisamente quando McMurtry deveria viajar para a Inglaterra para pessoalmente solicitar o visto de entrada para Crowley e trazê-lo, ele informou o Sr. Germer de que ele acabara de se casar, que sua esposa estava grávida, e suas novas responsabilidades o impossibilitavam de ir avante com o plano!

Motta só ficou sabendo disto em março de 1984 e.v., ao ler uma cópia da carta de resposta do Sr. Germer a McMurtry (McMurtry foi intimado a entregar cópias da sua correspondência com o Sr. Germer como parte do seu depoimento). Motta comentou com o seu advogado sobre esta carta, expressando total desprezo pela ação, ou antes, inação de McMurtry. O advogado de Motta, que era um bom homem, mas não um grande homem, replicou condescendentemente que Motta não podia compreender estas coisas — a implicação sendo que Motta não podia compreender porque Motta era homossexual. Compreenda-se, o advogado de Motta lera a correspondência privada de Motta com o Sr. Germer (a qual McMurtry tornara disponível a qualquer pessoa disposta a ler a correspondência alheia sem o conhecimento ou o consentimento do dono — leitores que são pessoas sérias poderiam ficar surpresos em saber quanta gente há não só disposta, mas até ansiosa em fazer isto). Ele sabia que Motta não é casado e não deseja se casar; sabia que Motta freqüentemente diz aos seus discípulos do sexo masculino que para se desvencilharem dos seus vampiros (machos ou fêmeas, por sinal!) ou ele se desvencilhará deles, sabia que Motta tem repetidamente expressado um desprezo total pelo "santo matrimônio" e pelo instinto reprodutivo dos mamíferos; sabia, acima de tudo, que Motta tem tido experiências homossexuais ... E, sendo um bom, mas não um grande homem, o advogado de Motta não podia conceber que uma pessoa pode fazer tudo isso e ainda assim ser capaz de compreender o impulso que leva gente a se juntar para criar famílias; compreendê-lo melhor que a gente que faz isso compreende a si mesma; compreende-lo melhor precisamente porque ele ou ela tem visto mais, feito mais, e sofrido mais que essa gente cujas alegrias são tão fracas, e tão próximas do nível dos animais.

Motta se absteve de dizer ao seu advogado que o motivo por que ele nunca se casou é que nenhuma mulher foi ainda capaz de convencê-lo de que ele só poderia provar sua maturidade ou virilidade em se tornando o provedor para os instintos dela de bicho de cria. Muitas têm tentado. Motta já usou mulheres, e já deixou mulheres usá-lo; mas ele nunca abusou de mulheres, nem permitiu que elas abusem dele. Motta se absteve de dizer ao seu advogado que ele considera o pai de família mediano pouco mais que um macaco falante domesticado; Motta é muito delicado, e sabia que seu advogado era casado e pai. Ele não queria magoar o seu advogado. Além do mais, ele precisava do seu advogado. Ele meramente perguntou (delicadamente):

"McMurtry ainda está casado com a mulher em questão?"

O advogado teve que admitir que McMurtry não estava mais casado com a dama em questão (supondo-se que uma dama esposaria McMurtry). Motta então perguntou:

"Não podia ele simplesmente ter ido à Inglaterra, e trazido Crowley para os EE.UU. e depositado a carga na porta dos Germers, que ele sabia muito bem teriam recebido Crowley de braços abertos, e então ido onde lhe aprouvesse e criado sua família sem ser impedido por Bestas envelhecidas?"

O advogado condescendeu em admitir que McMurtry poderia ter feito isto.

"Neste caso", Motta sugeriu, sempre delicadamente, "não poderíamos dizer que o motivo por que ele não foi era que ele não queria ir?"

O advogado admitiu isto; mas para o olho experimentado de Motta pareceu ainda mais divertido do que impressionado por um veado capaz de raciocinar com tanta lógica sobre um assunto tão sagrado quanto a reprodução dos mamíferos. O advogado de Motta, além de não ser um grande homem, era judeu; e Motta ainda está por ver um judeu do sexo masculino capaz de resistir à esperteza da fêmea da nossa espécie. (Se os homens judeus pudessem fazer isto, as leis e regras religiosas da cultura hebraica não seriam tão protetoras dos homens — e tão opressoras das mulheres — quanto as vemos em "Êxodo" ou "Deuteronômio" (livros do "Velho Testamento").

Possivelmente foi a incapacidade de McMurtry de resistir a esta, a mais óbvia forma de vampirismo (a mais simples forma da Ordália de Probacionista!) que arruinou suas chances de se tornar um verdadeiro Telemita. Esta foi também a principal razão por que ele não foi mencionado no testamento de Crowley (escrito um ano após o auto-propagandizado "Califa" cair de quatro, posição em que ele posteriormente se conservou até morrer); e certamente o motivo por que o Sr. Germer o manteve à distância para o resto de sua vida. Mas é interessante notar que Crowley já havia previsto esta fraqueza de McMurtry quando lhe sugerira o Moto do qual McMurtry foi tão tolamente orgulhoso — Hymenaeus Alpha — o Tolo do Casamento... Note-se que McMurtry foi encorajado a assumir este Moto anos antes de prová-lo tão apto.

A deslealdade de McMurtry foi um rude golpe. Crowley sabia agora que morreria na Inglaterra, longe do Sr. Germer, seu mais leal e mais amado discípulo; estava cônscio da acirrada perseguição que o F.B.I. estava movendo contra os Germers à instigação de Hoover. E se armassem uma arapuca ao Sr. Germer e o prendessem? E se ele morresse na prisão? Germer era mais jovem que ele, mas já não era nenhum garoto. A principal preocupação de Crowley tornou-se o futuro da sua Obra. Projetos financeiros (minério na África do Sul, no Brasil, e em outros lugares) fracassavam repetidamente. As forças opostas do velho aeon ainda eram pesada demais. Que poderia ele contribuir ao futuro da sua Obra?

Pela primeira vez deve ter-lhe ocorrido que seus direitos autorais poderiam eventualmente valer alguma coisa. A idéia de um testamento cresceu em sua mente. Mas a quem ou a que legaria ele seus direitos? A A\ A\ não era uma organização material; portanto não podia ter existência legal como organização. A Ordem de Télema estava ainda em embrião: apenas dois Zeladores completos no mundo, e um deles ele mesmo! Teria que ser a O.T.O., a qual era a única organização com o potencial de se registrar legalmente e existir legalmente no plano material.

Portanto, a 19 de junho de 1947 e.v., aproximadamente seis meses antes de morrer, Crowley escreveu sua última (em mais de um senso) Vontade e Testamento, em que ele revogou todas as disposições prévias, deixou seus direitos autorais para a O.T.O., e determinou que seu legado literário fosse enviado ao endereço que o Sr. Germer tinha então em Nova Iorque. Em cartas pessoais ele informou todos os seus discípulos de que seu sucessor escolhido era Frater SATURNUS, Karl Johannes Germer.

Dois dias antes de assinar sei testamento ele escreveu a Grady Louis McMurtry uma carta que McMurtry reproduziu muitas vezes como "prova" de sua importância pessoal na O.T.O. :

Caro Grady,

Faze o que tu queres há de ser tudo da Lei.

Parece muito tempo desde que você me escreveu. Isto é um grande erro: eu lhe direi por que em estrita confidência. Em caso de minha morte Frater Saturnus é, está claro, meu sucessor, mas após a morte dele a terrível carga de responsabilidade poderia muito facilmente cair sobre os seus ombros; por este motivo eu gostaria de que você se mantivesse sempre em contato comigo.

Estou lhe mandando uma cópia encadernada de "Olla" para lembrar você de mim.

Por falar nisso, "Cartilha Mágica" está quase pronta, mas há duas cartas faltando; estas ainda têm ou de ser encontradas ou re-escritas. Parece haver uma boa chance de ter o livro publicado através de uma editora regular. Isto significa, claro, que o desconto será muito maior, mas isto é para vantagem sua, porque significa a venda de muito mais cópias extras, e sua percentagem é de vinte e cinco por cento da renda bruta, não da líquida.

Eu estou muito ocupado esta tarde e por isto tenho que terminar esta carta aqui.

Amor é a lei, amor sob vontade.

Fraternalmente seu,

Aleister

A referência a "Cartinha Mágica" era porque Crowley pedira dinheiro a McMurtry para ajudar a publicar "O Livro de Thoth". McMurtry contribuíra a munificente quantia de cinqüenta libras esterlinas mas exigira recibo e garantias... Crowley passara-lhe o recibo exigido e oferecera-lhe, como se vê acima, vinte e cinco por cento da renda da venda de "Cartilha Mágica". Outros discípulos, entre eles Karl Germer, contribuíram centenas de libras e não pediram nem recibo nem garantia por um dos livros mais bonitos que já foram produzidos. Apenas duzentas cópias de "O Livro de Thoth" foram impressas, todas autografadas por Crowley. Uma cópia rende, quando se vende, mais de mil dólares hoje em dia.

A publicação de "Cartilha Mágica" por uma editora regular era, claro, apenas sonho. John Symonds já estava trabalhando na sua biografia deliberadamente sensacionalista, "A Grande Besta", e talvez tenha levado Crowley a acreditar que seus editores se interessariam pelo livro. Pode também ter sido uma tentativa de Crowley de agradar o distante McMurtry, que ainda estava se queixando da falta que lhe fazia sua preciosa "contribuição" de cinqüenta libras.

McMurtry pelo menos uma vez reimprimiu esta carta com o seguinte cabeçalho: "Uma das muitas últimas cartas de Crowley a Hymenaeus Alpha sobre o Califado. Esta carta dá clara evidência de que Crowley via Grady como um provável sucessor depois de Frater Saturnus, Karl Germer. Germer morreu em 1962 e.v. Crowley morreu seis e uma fração de meses (sic) depois desta carta."

O que McMurtry não disse é que ele nunca respondeu à carta. Inevitavelmente, entretanto, ele a apresentou como evidência no processo em Maine, para ajudar Donald Weiser e tentar confundir as coisas sob alegação de que ele, McMurtry, tinha direito de representar a O.T.O. (Isto ajudaria Weiser porque parte do trato dele com McMurtry era que ele, Weiser, seria "perdoado" pelas suas edições piratas impressas antes de "adotar" o "Califa"). Deve ter entristecido esses dois patifes que a O.T.O. pode apresentar a seguinte carta, de Crowley a Frederic Mellinger (um Irmão então servindo no exército americano, o qual, incidentalmente, era um judeu), escrita quase exatamente um mês depois da carta a McMurtry:

Meu Querido filho,

Faze o que tu queres há de ser tudo da Lei.

Eu devia ter respondido à sua carta de 24 de junho há mais tempo, mas eu tenho estado sobrecarregado de trabalho e de visitas que não podiam ser adiadas, e doença devida ao mau tempo, de maneira que estou todo baratinado.

Fico muito contente de saber que você gostou do presentinho; todo mundo parece ter gostado. Você é um das três ou quatro pessoas a quem mandei cópias...

O "presentinho" era uma cópia de OLLA.

Fico feliz em saber que seu trabalho está impressionando os seus colegas e os seus subordinados. Não esqueça "sem ânsia de resultado"!

Quando quer que você tenha um momento de sobra pense em mim, e lembre-se que você não pode trazer maior felicidade à minha vida do que me escrevendo um bilhetinho: não importa se há alguma coisa para dizer ou não.

Estou realmente muito ansioso de que você se mantenha em estreito contato comigo, se apenas porque eu considero muito possível que após Frater Saturnus e eu mesmo passarmos ao próximo estágio você talvez se veja sob o peso da inteira responsabilidade de continuar com o trabalho da Ordem. É da máxima importância que você preste estrita atenção a experiência pratica de todos os pontos da obra, porque quando você se tornar a cabeça suprema de tudo você descobrirá que gente escreve a você de todas as partes do mundo fazendo todo tipo de perguntas impossíveis, e você tem que responder não apenas com tato e sinceridade, mas com conhecimento detalhado.

Por favor, lembre-se disto acima de tudo... a gente nunca sabe em que momento se pode encontrar numa posição de suprema responsabilidade, e a gente não deve recusar essa posição nem tentar passar ao largo dela. Eu creio que isto é tudo que eu tinha a dizer hoje à tarde.

Você não imagina as coisas impossíveis que as pessoas me pedem para fazer. A B.B.C. queria alguma de "Olla" — nem me lembro bem o que — e agora mandaram o livro de volta por que o homem que originalmente o queria está de licença por motivos de saúde, e ‘por favor, mande o livro novamente em novembro’. Bom, eu nem sei mais quando é novembro direito! Meus talentos de organização não são dos maiores, como você sabe muito bem, e eu simplesmente não sei o que fazer sobre este particular problema. Parece-me que quando novembro chegar eu não me lembrarei mais de quem me escreveu originalmente pedindo o livro, ou o que ele queria com o livro. A única coisa que ocorre fazer é por uma anotação no meu diário para o primeiro de novembro para mandar o livro de volta para o sujeito — que eu nem sequer conheço pessoalmente — naquele dia. Em outras palavras, eu estou mais encalacrado do que jamais estive na minha vida.

Por falar nisso, um homem apareceu por aqui que tem estado estudando meus livros faz alguns anos, e está bem avançado em vários planos. A grande desvantagem dele é que ele parece não conseguir trabalhar no Plano Astral, por isto eu pedi a ele para voltar aqui depois de amanhã para que eu possa dar a ele o mesmo teste que dei a você. Eu gostaria de saber, por sinal, depois de todos estes meses, qual o resultado daquele teste.

Amor é a lei, amor sob vontade.

Sempre seu,

Com a bênção

Total de um Pai

666

Como se vê, uma carta muito mais calorosa que aquela enviada a McMurtry, e não admira. Aproximadamente cinco meses depois ele morreu. Mellinger progrediu e eventualmente foi nomeado co-testamenteiro do Sr. Germer com a Sra. Germer. Quanto a McMurtry, o que ele já era, e o que mais ele se tornaria com o tempo, ficará muito claro da continuação deste relato.

A campanha contra Telemitas não se limitava aos Germers, e não cessou com a morte de Crowley. Parsons, que já estava obcecado pelo fracasso em entregar tudo que ele tinha e tudo que ele era, tentou se colocar acima da Besta através do processo de "conseguir sua própria Mulher Escarlate" (soa familiar?). A mulher que ele escolheu para "Babalon encarnada" prontamente fugiu com todas as economias dele e com o futuro pai da "Dianética e da "Cientologia", L. Ron Hubbard (o qual começou sua bem sucedida carreira de vigarista com este respeitável fundo financeiro).

Hubbard mais tarde declarou que ele havia sido enviado a Parsons pelo serviço de inteligência da marinha dos EE.UU., "para acabar com a magia negra nos Estados Unidos". A marinha americana, ao ser interpelada, nem confirmou nem negou essa conexão ilustre. Se for verdade, Hubbard não foi a primeira nem será a última cavalgadura da inteligência, na marinha americana ou fora dela, que tomou a rédea nos dentes e galopou vida afora fazendo melhor — ou pior — que os seus jóqueis.

Sem sua fortuna, sem sua "Mulher Escarlate", Parsons foi procurado por uma pessoa cujo nome, por alguma razão inexplicada, o governo americano se recusa a revelar. Tudo que se sabe sobre ele é que era um judeu... Essa pessoa se propôs a comprar de Parsons segredos militares do governo norte-americano (Parsons era um engenheiro especializado em combustíveis sólidos para foguetes e trabalhava para o governo). "Inexplicavelmente", as negociações se tornaram conhecidas pelos chefes de Parsons, que encetaram um inquérito altamente sigiloso sobre ele. Foi enquanto esse inquérito ainda estava em progresso que Parsons "acidentalmente" explodiu seu laboratório e a si mesmo. Como já dissemos, McMurtry afirmou publicamente e por escrito que ele participara nas investigações contra Parsons.

Os registros desse inquérito foram obtidos como parte de um pedido formal pela O.T.O., com base na Lei de Liberdade de Informação americana. A maioria das páginas está totalmente obscurecida, o que significa ou que a agência responsável considera toda a operação altamente embaraçosa para si, ou que a maioria dos informantes ainda estavam vivos quando o pedido foi feito, ou que estavam obtendo, mesmo depois de mortos, o tipo de proteção que caluniadores ou mentirosos sempre recebem de serviços de "inteligência". Aparentemente, tais serviços acham que só podem funcionar bem num clima de traição humana. Obviamente, Parsons foi vitima de uma deliberada armadilha; que um judeu tivesse sido o personagem central desse jogo sujo é muito interessante em vista das subseqüentes desventuras de Motta com Oskar Schlag e outros agentes israelenses, e em vista do agora óbvio ódio dos sionistas por Télema.

Parsons se matou em 1952 e.v., no mesmo ano em que o Sr. Germer mandou a Kenneth Grant uma patente dando-lhe o direito de trabalhar com os primeiros três graus da O.T.O. No principio do ano seguinte, 1953 e.v., Marcelo Motta entrou em contato com o Sr. Germer pela primeira vez.

Motta, um cidadão brasileiro, foi referido ao Sr. Germer por Parsifal Krumm-Heller, filho de Arnold Krumm-Heller (Frater Huiracocha VIII° O.T.O.). Motta visitara Parsifal Krumm-Heller em Warburg, na Alemanha, pouco antes de ir estudar numa universidade norte-americana. Motta estivera interessado em ocultismo, e especialmente no que é algumas vezes chamado de "tradição esotérica do ocidente", desde a adolescência.

Especificamente, desde os onze anos de idade, depois de ler Zanoni, por Sir Edward Bulwer-Lytton.

Parsifal Krumm-Heller estivera ensinando Motta à distancia desde que os dois se haviam encontrado (Parsifal estava então com trinta e poucos anos de idade, Motta com vinte e dois). Ele fizera dois estudos astrológicos, grafológicos e quiromânticos de Mota, os quais contêm algumas predições de acurácia notável, e demonstrara grande interesse no desenvolvimento do jovem. Ao passá-lo ao Sr. Germer, ele escreveu "Estou colocando você em contato com um iniciado muito mais avançado do que eu, porque acho que você se beneficiará mais da orientação dele do que da minha." (Não uma atitude que se pudesse esperar de um L. Ron Hubbard ou de um Grady McMurtry!) Subseqüentemente, Parsifal deixou a Alemanha com a esposa e o filho, e desapareceu completamente, como fazem alguns iniciados.

Como e por que Motta entrou em contato com Parsifal Krumm-Heller não é importante aqui. Basta dizer que Motta tinha estado tentando entrar em contato com uma corrente iniciática séria desde os onze anos de idade, e lera a maioria dos bons autores ocultistas (tais como Levi, Blavatsky, Vivekananda, Paracelsus, Stainer) assim como uma abundância de falsos mestres e charlatães sem pejo. Ele estudara também a literatura religiosa do oriente, e estava familiarizado, dentro dos limites das traduções que lhe eram disponíveis, com as Mil e Uma Noites, o Bhagavd Gita, o Ramayana, o Dao De Jing, os aforismas de Patanjali, etc. Além de usa língua materna, o português, ele lia e falava o francês e o espanhol, tinha um pouco de latim (felizmente para ele, o latim era compulsório nos colégios brasileiros da sua época), um pouco de alemão, e já era muito fluente em inglês.

Após alguma correspondência inicial, Motta visitou os Germer pessoalmente e foi-lhe oferecida a alternativa de ou se juntar à A\ A\ ou se juntar à O.T.O. Motta escolheu a primeira imediatamente: ele lera Uma Estrela à Vista, que descrevia exatamente o tipo de organização que ele estivera procurando desde os onze anos de idade. Ele levou sete anos e passou por muitas tribulações antes de ser promovido de Probacionista a Neófito.

Pouco após a primeira visita de Motta, os Germers se separaram e permaneceram separados por vários anos. A Sra. Germer, com justiça ou não, associou a separação à visita de Motta, e a partir de então detestou Motta intensamente.

Dois outros fatores contribuíram para este desafeto. Quando vira a Sra. Germer pela primeira vez, Motta (jovem e inexperiente) fora repelido pelas feições dela. Ela tinha, infelizmente para ambos, um tipo de face que ele, com a intolerância e egocentrismo naturais da juventude, considerava feia. Isto não tem absolutamente nada a ver com o fato de que ela era judia, pois Motta é fortemente atraído por mulheres judias, principalmente aquelas cuja aparência é convencionalmente considerada a mais típica: olhos e cabelos negros, tez trigueira, nariz aquilino, maçãs salientes, rosto triangular — o tipo que os próprios judeus chamam de "Schwartz", de fato. (Um tipo semítico, podemos acrescentar, extremamente comum entre os árabes.) Ao se encontrarem pela primeira vez, ele nem sabia que a Sra. Germer era judia por nascimento. O fato de uma pessoa ser judia ou não pouco significava para Motta: felizmente para ele, não fora criado no catolicismo romano: sua mãe, que era a autocrata da família, havia decretado que ele deveria escolher sua própria religião quando crescesse (uma atitude raríssima no Brasil; não se pode deixar de sentir a mão dos Chefes Secretos atrás disso). A eventual escolha de Motta foi, claro, Télema.

Até mesmo hoje em dia é muito difícil para Motta não mostrar seus sentimentos em sua face; não fosse seu ascendente o Leão! A Sra. Germer deve ter lido a reação dele no momento em que entrou na sala. Ele estivera esperando uma mulher como o livro da Lei descreve: uma besta magnífica com cabelos flamejantes, membros grandes, corpo voluptuoso, fogo e luz em seus olhos; e entrou essa senhora, de aparência convencional, queixo retraído, ligeiramente pomposa... Pobre Sra. Germer! E pobre Motta, pois a maior parte dos seus problemas com a O.T.O. surgiu dessa primeira reação de antipatia.

O segundo fator é mais fácil de compreender: a Sra. Germer era extremamente suspeitosa de estranhos. Para começar ela era uma refugiada do nazismo e vira de perto os horrores da Gestapo; Motta que tem sangue suíço-alemão (ele também tem sangue de índio brasileiro e negro africano, mas estes não são aparentes), era louro, tinha olhos claros e falava inglês com leve acento alemão (sua primeira professora particular de inglês, uma senhora israelita, era outra refugiada da Alemanha; mas tão cedo após a guerra, e lecionando inglês, ela preferia se passar por inglesa. Motta se esforçara por adquirir seu "puro acento britânico" e tinha, infelizmente, sido bem sucedido!). Também, Motta, produto de um colégio militar, tinha um porte aprumado de soldado (sete anos de treino militar na adolescência fazem isto a qualquer um). A presença dele, com aparência de alemão, falando inglês com sotaque alemão, com um porte militar, e com óbvio desdém por ela, deve tê-la lembrado amargamente daqueles jovens oficiais e soldados da SS que haviam sido o terror dela. Para cúmulo, o F.B.I. a tinha perseguido tão acirradamente que ela havia perdido todos os seus alunos, não podia lecionar a música que ela adorava, ou sequer tocar a música que ela adorava na presença de uma audiência amistosa (Motta solicitou que ela tocasse para ele; queria ver se ela realmente sabia tocar; ela recusou delicadamente, sabendo muito bem que ele queria pegá-la de surpresa), e esperava que tanto ela mesma quanto seu marido fossem incomodados ou até presos pelo Bureau a qualquer momento ou em qualquer lugar. (Esta era uma reação que havia sido cuidadosamente implantada: é uma das técnicas de terror mais comumente empregadas por serviços de "inteligência".) Sua primeira percepção da antipatia de Motta por ela cresceu lentamente até se tornar uma convicção de que Motta não só a odiava, mas era outro agente do F.B.I. enviado para espionar sei marido. Se bem que Motta não tinha qualquer idéia disto na época, ela constantemente prevenia o Sr. Germer contra ele; e o Sr. Germer, que também sabia muito bem como o F.B.I. de Hoover podia abusar das pessoas, teve suspeitas de Motta até quase o último ano de sua vida. Isto não o impediu de tentar cumprir seu dever como Instrutor com uma paciência e uma equanimidade que Motta talvez não merecesse.

Em 1955 e.v. o Sr. Germer foi forçado a expulsar Kenneth Grant da O.T.O., e enviou uma cópia da Notícia de Expulsão a todo mundo que tinha a mais remota conexão com trabalho da O.T.O. Motta, está claro, não recebeu uma cópia; ele não era membro da O.T.O. Seu interesse continuava a ser as disciplinas iniciáticas da A\ A\ , cujo Currículo ele estava tentando seguir da melhor forma que suas habilidades permitiam; mas suas habilidades não eram das maiores.

Deve ser também notado que Motta ignorava completamente os termos do testamento de Crowley, e a importância desses para a O.T.O. Ele sabia apenas que o Sr. Germer havia dito a ele que o primeiro volume de O Equinócio nunca tivera os direitos autorais registrados, uma vez que Crowley tinha sido da opinião que sua obra deveria pertencer à humanidade em geral; e Motta assumira que o mesmo era o caso com todas as outras obras de Crowley. Na época, Crowley tinha a pior fama possível, e ninguém queria publicar seus livros; o Sr. Germer os estava imprimindo com grande sacrifício. Quaisquer quantias que lhe chegassem às mãos eram imediatamente destinadas à publicação. Suas cartas a Motta refletiam seu grande desejo de publicar mais, e Motta sonhava constantemente com ser capaz de ajudar o Sr. Germer neste trabalho.

No final de 1956 e.v. o Sr. Germer convidou Motta a visitá-lo pessoalmente. O Sr. Germer, que estava separado da Sra. Germer fazia alguns anos, estava vivendo na casa de Ero Sivohnen, um Irmão, em Barstow, Califórnia. Motta foi a Barstow e lá o Sr. Germer inesperadamente iniciou-o no IX° da O.T.O. e deu-lhe todos os rituais da O.T.O. e todos os manuscritos secretos da Ordem para ler. Ele também deu a Motta para ler o texto integral da Constituição da O.T.O. qual reformulada por Crowley (somente uma parte deste documento foi publicada no Equinócio III 1, o assim-chamado "Equinócio Azul").

Foi ao ler este documento que Motta se familiarizou com a maneira em que a Cabeça Externa da O.T.O. é escolhida. A Cabeça Externa é eleita somente se a Cabeça Externa prévia tiver morrido sem nomear seu sucessor ou sucessora; e pode então ser eleita somente pelo voto unânime de todos os Reis (ou Rainhas) Nacionais existentes. Nenhum Irmão ou Irmã de grau mais baixo, não importa nem que sejam membros do IX°, tem qualquer voz no assunto. A O.T.O. não é uma instituição "democrática": é uma hierarquia e uma (aparentemente) autocracia simultaneamente. Regras democráticas são usadas nos graus mais baixos, e mesmo no X° no caso único de absoluta emergência; mas uma vez designado (ou designada) e assumido o cargo em seguida ao seu antecessor (ou antecessora), a Cabeça Externa (como a parte publicada da constituição diz explicitamente, p. 244, parágrafo 6 da edição original do "Equinócio Azul", em inglês), é absoluta. Seu poder deriva diretamente da Cabeça Interna da Ordem, não de qualquer um dos membros. A provisão de que a Cabeça Externa pode ser deposta pelo voto unânime dos Reis ou Rainhas nacionais tem como finalidade proteger a O.T.O. no caso único, pouco provável, mas sempre possível, de que as responsabilidades do cargo desequilibrem a mente da C.E.O.

Em suas "epístolas aos fiéis", Grady Louis McMurtry tentava impingir que o Sr. Germer nunca fora designado Sucessor por Crowley; também, que mesmo que ele tivesse sido formalmente designado ele ainda assim teria que ser eleito! (Antes dele, Joseph Metzger tentara uma variante do mesmo truque: alegando que o Sr. Germer morrera sem designar um sucessor, fez-se "eleger" C.E.O. pelos membros do seu próprio grupo suíço.) A correspondência com Crowley, com o Sr. Germer e com outros membros da O.T.O. nos EE.UU. que McMurtry foi intimado judicialmente a entregar, demonstra não só que ele sabia perfeitamente que o Sr. Germer era o sucessor designado, mas que até em diversas cartas ele admitira explicitamente que sabia que o Sr. Germer era a nova C.E.O. McMurtry mentiu repetidamente sobre a O.T.O. em suas cartas circulares e em suas "proclamações", por motivos que provavelmente se tornarão mais e mais claros para os leitores inteligentes à medida que continuemos esta história.

Ser iniciado na O.T.O. — e isto no seu mais alto grau não-administrativo, com exceção de um! — fez Motta ficar muito confuso. Ele não podia entender bem por que o Sr. Germer o iniciara. Ele compreendeu imediatamente a profunda importância do IX°, e pode perceber os princípios e fitos da Ordem; mas ele era totalmente incapaz de usar na prática o conhecimento que lhe fora dado. Anos se passaram antes que esta situação mudasse.

Como se a confusão do jovem não bastasse, o Sr. Germer o impeliu avante impiedosamente, dando-lhe os diários confidenciais de Crowley em Cefalú e outras partes para ler, e franquiando a Biblioteca Telêmica a ele. Além disto, o Sr. Germer pessoalmente levou Motta para visitar todos os Irmãos e Irmãs além dos Sivohnens que viviam na Califórnia, e apresentou-o a eles como um novo membro do IX°. Essas pessoas eram o Dr. Gabriel Montenegro Vargas, Ray e Mildred Burlingame, Wilfred e Helen Smith, Phyllis (então) Wade, Louis Culling e sua amante Meeka, e Grady Louis McMurtry.

McMurtry tentou impingir aos seus correspondentes e a Donald Weiser e James Wasserman que Motta, tendo sido originalmente autorizado pelo Sr. Germer a dirigir uma Loja apenas até o III° O.T.O., não tinha direito a qualquer grau da Ordem mais alto que o III°, e estava mentindo quando se declarara um membro do IX° e do XI° no "Manifesto" publicado em Equinox V 1. Porém, McMurtry foi depois forçado a admitir no tribunal que Motta tem o IX°. McMurtry também objetou contra a autoridade de Motta alegando que Motta não tivera treino regular na O.T.O.; isto é, não subira através dos graus da maneira regular. Mas novamente, a evidência dos documentos que ele foi forçado a entregar demonstra que McMurtry havia sido introduzido na O.T.O. exatamente da mesma maneira que Motta: isto é, ele nunca tivera treino prévio nos graus abaixo do IX°. Isto está claramente dito em uma das cartas de Crowley a McMurtry (não uma das famosas "cartas do califado", das quais falaremos mais adiante...) que McMurtry nunca deu a público antes de ser intimado judicialmente.

Há uma grande diferença entre ser um membro ou membra do IX° O.T.O. e ter permissão de operar um "Acampamento" ou Loja da O.T.O. McMurtry nuca teve permissão do Sr. Germer para operar coisa alguma; suas patentes condicionais dadas por Crowley nunca tiveram a sanção necessária para serem ativadas. Durante dez anos Motta deu a McMurtry toda chance possível para apresentar evidência de confirmação pelo Sr. Germer. McMurtry não pode apresentar tal evidência a Motta pessoalmente; isto poderia ter sido devido à óbvia hostilidade de McMurtry por Motta, e, portanto Motta preferiu esperar. Mas ele também não pode fazer isto em seu depoimento sob juramento no tribunal em Maine em março de 1984 e.v. De fato, ele se contradisse constantemente ao ser interrogado.

McMurtry também alegou publicamente por um lado que Motta assumira o XI° O.T.O. por sua própria conta, sem o conhecimento do Sr. Germer; e por outro que, tendo assumido o XI°, Motta declarara publicamente que ele é homossexual (coisa muito feia na cartilha de porco chauvinista de reacionários políticos da laia de McMurtry e Ronald Reagan), e, portanto era indigno (!) de ser a C.E.O. Mas (como ele mesmo admitiu voluntariamente no tribunal) McMurtry havia estado ilegalmente de posse da correspondência privada entre Motta e o Sr. Germer durante anos, e foi compelido a fornecer cópias da mesma. A correspondência prova conclusivamente que o Sr. Germer soubera que Motta assumira o XI° O.T.O. mais de um ano antes de morrer, e nunca apresentara qualquer objeção. Não é, claro, mais verossímil que McMurtry não estava a par deste fato do que é verossímil que ele não sabia que Motta tem o IX° O.T.O.: McMurtry lera a correspondência entre Motta e o Sr. Germer pelo menos o suficiente para copiar as cartas íntimas de Motta ao seu instrutor e distribuí-las entre os seus "fiéis".

Nos últimos dias de sua estadia em Barstow, Motta teve uma experiência inusitada que não o impressionou tanto na ocasião quanto devia (mas nesse tempo Motta ainda não era paranóico. De fato, seria justo dizer que então, dentro dos seus limites, Motta era tão ingênuo e amigável quanto o chela hindu mediano). O Sr. Germer veio a ele e perguntou-lhe se ele se lembrava do que acontecera a uma carta que a Sra. Germer enviara ao marido separado duas semanas antes. Motta não se lembrava do que acontecera com a carta.

O Sr. Germer, cujo olhar podia ser muito penetrante, insistiu. Motta começou a suspeitar de que ele estava sendo acusado de interceptar a correspondência do Sr. Germer; um ato totalmente estranho à natureza de Motta. Ele também começou a suspeitar que a acusação vinha da esposa de Ero Sivohnen, Jean Sivohnen, que estivera agindo hostilmente para com Motta Fazia algum tempo.

Motta fora imprudente a ponto de declarar à mesa que ele concordava com a maior parte das críticas de Crowley aos EE.UU. em Os Comentários de AL, e a Sra. Sivohnen havia tomado a posição de "meu país, certo ou errado"; diante da qual Motta abandonara a liça; mas, ela pudera sentir, não abandonara a sua opinião. Em um nível mais pessoal, Motta rejeitara algumas propostas sexuais da dama, ela sendo demasiado magra, demasiado azeda de temperamento, e demasiado velha para os gostos dele.

Após dez minutos fazendo-lhe perguntas, o Sr. Germer magoara os sentimentos de Motta a ponto de que o jovem estava começando a se encolerizar. (Devemos repetir que Motta não tolerava interferência nos assuntos privados de outras pessoas: ler a correspondência alheia sem permissão, ou ler os papéis privados de outra pessoa sem permissão, era coisas que ele desaprovava seriamente. Em sua adolescência ele fora vítima deste tipo de espionagem em seu próprio lar, por seus próprios pais; e ele abominava tais coisas.) O Sr. Germer pareceu finalmente satisfeito que Motta não interceptara a carta, e disse-lhe;

"Não se preocupe, Marcelo. Quando Sasha conhecer você melhor, ela não suspeitará de você desta maneira."

O queixo de Motta caiu. "Sasha?!" ele exclamou, ultrajado. Nunca ocorrera a ele que a acusação pudesse provir da Sra. Germer. Realmente, ela estivera de visita fazia uma semana, e demonstrara total frieza para com ele; ele sabia que ela não gostava dele, mas nunca lhe ocorrera que ela podia suspeitar que ele cometesse um tal ato.

Muitos anos após, Motta finalmente reconstruiu o que ocorrera. Uma carta chegara para o Sr. Germer com outra correspondência quando tanto o Sr. Germer quanto os Sivohnen estavam ausentes. Motta recebera a correspondência e quando Jean Sivohnen chegara do trabalho horas depois ele lhe dera a carta ao Sr. Germer para entregar, uma vez que ele próprio ia sair.Parece claro que Jean Sivohnen ou interceptou a carta ou a colocou em algum lugar e esqueceu-a completamente. A possibilidade de que a Sra. Germer estava mentindo sobre o envio da carta, apenas para causar problemas entre o Sr. Germer e Motta, também existia, naturalmente; mas desde que em anos posteriores correspondência que não chegava se tornou tão comum com Motta como fora com os Germers, ele se inclina para a primeira hipótese.

De qualquer maneira, se a Sra. Germer era sincera em suas suspeitas (e Motta acredita que sim), este foi o primeiro exemplo dos problemas de comunicação que, anos mais tarde, cresceriam entre Motta e Sasha Germer, incentivados pela malícia de terceiros. À medida que continuarmos, isto se tornará bem claro.

Cinco anos depois, quando Motta já estava de volta ao Brasil, o Sr. Germer escreveu-lhe comunicando a morte de Ero Sivohnen (que fracassara na Ordália do Probacionista), e declarando que Jean Sivohnen era um vampiro. Ela já havia, ele disse, matado antes outro Irmão digno (Schneider); a seguir tentara enfiar as garras no Sr. Germer; não conseguindo, se dedicara a Sivohnen. Após a morte deste ela tentara novamente gadunhar o Sr. Germer, sem resultado.

Jean Sivohnen foi uma das pessoas com quem Oskar Schlag mais tarde entrou em contato para conseguir informações sobre Motta, como veremos.

Deixando Barstow, Motta regressou a Baton Rouge, Louisiana, onde ele então residia; e suas ordálias pessoais se intensificaram. Ele estivera vivendo, contra a sua vontade, com uma mulher para com a qual ele tolamente sentia obrigações pessoais (era a mãe de seus dois filhos); as circunstâncias e sua própria compulsão interna de buscar a Iniciação eventualmente efetuaram uma separação permanente.

Uma vez que as aventuras pessoais de Motta são irrelevantes para este relato, não entraremos a fundo no assunto.

Motta alugou um quarto numa pensão de propriedade de um sargento de policia local (como de hábito, um americano de extração irlandesa e católica romana); ele alugou igualmente um pequeno escritório no centro da cidade. Em dias de trabalho normais ele fazia de babá para a sua ex-amante a fim de que ela pudesse trabalhar para se sustentar (coisa que ela sempre relutara em fazer enquanto ele vivera com ela, insistindo em que ele a sustentasse em vez de "perder tempo tentando ser um escritor. Por que não trabalhar como vendedor de seguros? Sua primeira obrigação é para com a sua família. Você é egoísta e imaturo.’etc., etc.). Quando ela chegava em casa à noite ele ia para o seu escritório, onde ele estava tentando escrever ficção comercialmente, e onde ele executava as suas práticas. Ele chegava ao seu quarto de pensão usualmente depois das dez da noite. Os fins de semana ele passava escrevendo. Ele dormia em média cinco horas por noite.

Os segredos iniciáticos que lhe haviam sido comunicados em Barstow haviam feito uma profunda impressão no psicossoma dele, embora ele não percebesse isto (estavam lentamente se expandindo e crescendo em toda direção do seu ser). Também, representavam um problema. Conhecimento muito importante lhe fora confiado; porém, conhecimento que ele se sentia incapaz de usar. Ele pensava sobre isto constantemente. Muitos anos se passariam antes dele alcançar o nível necessário de maturidade mágica para aplicar aquele conhecimento.

É por isto que a jactância do finado McMurtry ao se gabar de ser "um membro quitado do IX° O.T.O." era completamente ridícula a não ser nos termos restritos da taxa cobrada pelos custos da cerimônia (aliás, o Sr. Germer nada cobrou a Motta pela iniciação). O Pavoneio, aliás, prova que McMurtry não tinha a mínima compreensão do IX°. O fato de que o grau é conferido não torna você automaticamente capaz de agir naquele nível; a diferença é precisamente definida na Carta 61 de Cartilha Mágica, "Poder e Autoridade".

Após um ano e meio de práticas intensivas, Motta alcançou a experiência central do Neófito e foi passado a Neófito. Subitamente, a polícia apareceu no seu quarto de pensão. Eles haviam (disseram) recebido uma carta anônima acusando Motta de ser um homossexual e um traficante de drogas. Um cigarro de maconha esmagado foi "descoberto" no quarto, sob uma cômoda.

Motta não foi formalmente indiciado; mas, após ser interrogado sem benefício de advogado e assinar um depoimento, ele foi enviado para a penitenciária local, onde tomaram suas impressões digitais e o fotografaram como se fosse um condenado (os leitores devem se lembrar de que isto foi na época da parceria de J. Edgar Hoover e Joseph McCarthy , uma década antes da decisão Miranda, que fixou os direitos de presos nos EE.UU. Hoje em dia um tal abuso de autoridade policial é contra a lei americana; mas se depender do governo Reagan, esse tipo de coisa se tornará rotina novamente). Vinte e quatro horas mais tarde ele foi libertado; exame de seu quarto e de suas roupas não fornecera qualquer evidência de que ele traficava drogas. Aparentemente também não foi encontrada qualquer evidência de homossexualidade, o que não é de admirar, uma vez que Motta na época era um celibatário e nunca praticara homossexualidade nos EE.UU. O autor ou autora da tal "carta anônima" nunca foi encontrado ou encontrada, claro...

Ao ser posto em liberdade sem acusações formais (o que foi devidamente anunciado na imprensa local), Motta escreveu ao Sr. Germer um relatório da sua experiência. O Sr. Germer replicou que quanto mais cedo Motta abandonasse sua inocência e percebesse que isto havia sido uma deliberada armadilha policial para comprometer um Telemita, tanto mais cedo ele aprenderia a se proteger contra esse tipo de manobra. Mas Motta, que ainda não se tornara paranóico, não podia compreender o que o Sr. Germer estava querendo dizer, ou por que qualquer pessoa ou organização poderia ser tão hostil a Télema a ponto de fazer tais coisas — afinal de contas, Crowley era tão completamente desconhecido que eles tinham dificuldades em publicar os livros dele!...

As ordálias iniciáticas de Motta se intensificaram ainda mais após esse incidente, o qual fora muito deprimente para ele. (Ele nunca fora preso na vida, e a ocorrência deixou nele um sentimento de ter sido conspurcado que levou muito tempo para se dissipar). Alguns meses mais tarde ele recebeu um telegrama do Brasil: sua mãe falecera, e seus parentes queriam que ele voltasse ao Brasil para decidir a questão do testamento dela.

Pelos motivos já mencionados, não entraremos a fundo nas desventuras de Motta com seus parentes, a não ser para dizer que eles haviam surrupiado o testamento da mãe dele e tentaram roubar-lhe sua parte da herança. Foi eventualmente necessário que ele os processasse para receber sua parte integramente. Esta experiência — dolorosamente chocante para ele — influenciou muito sua conduta após a morte do Sr. Germer.

De volta ao Brasil, finalmente de posse de algum dinheiro (embora, para seu desapontamento, não oriundo do seu trabalho como escritor), Motta escreveu ao Sr. Germer declarando-se pronto para ajudar a publicação de material telêmico. O Sr. Germer escolheu Liber Aleph como o primeiro livro a ser impresso, e escreveu a Motta que, devido à situação nos EE.UU., seria melhor que o livro fosse impresso no Brasil. Ao mesmo tempo, ele solicitou que Motta escrevesse uma carta ao Rei Suíço da O.T.O., o qual estava imprimindo frases da tradução de Liber AL ao alemão pelo Sr. Germer com deliberadas mudanças no estilo das letras. "Escreva como se de uma posição de autoridade," urgiu o Sr. Germer, "expressando-lhe ultraje por tais atrocidades contra Télema." Motta obedeceu e escreveu ao suíço uma carta, assinando-se "O Sol no Sul" e, pela primeira vez, usando o XI° O.T.O.

Não podemos entrar a fundo no assunto aqui, uma vez que é muito santo e muito secreto, a não ser para dizer que algum tempo antes Motta fora designado Cabeça Brasileira da Ordem de Télema, sob a Cabeça Internacional, que era o Sr. Germer. A Posição lhe dava o direito ao XI° O.T.O. Isto não deve ser confundido quer com "magia homossexual" (o que quer que isso seja) quer com o trabalho normal da O.T.O.

Duas semanas depois, Motta recebeu uma carta do Sr. Germer: "O suíço me escreveu pela primeira vez em mais de um ano", a carta informava. "Ele se assina A Criança. Eu não respondi; se o fizesse, eu abriria a carta com ‘Cara Criança nº 17 e meio’... A carta dele é semi-louca. Mas ele tem umas coisa a dizer sobre você! Ele diz que você escreveu a ele se chamando de ‘O Sol no Sul’e ‘Sacerdote dos Príncipes’. Que história é essa?"

Deve ser notado que nesses dias Motta era ainda mais relaxado do que é agora. Incrivelmente, ele não guardava cópias de suas cartas; e desta carta em particular ele deveria, claro, ter enviando uma cópia ao Sr. Germer. Não tendo feito isto, e não possuindo uma cópia da carta em seus arquivos — de fato, não tendo arquivos! — ele se lembrava muito pouco do texto da carta. Ele se lembrava, realmente, de ter assinado "O Sol no Sul" e "Sacerdote dos Príncipes". Ele escreveu ao Sr. Germer confirmando estes fatos.

Uma cópia desta carta — assim como de várias outras — não foi entregue pela quadrilha de McMurtry. McMurtry selecionou com grande cuidado as cartas de Motta ao Sr. Germer e vice-versa, apresentando apenas as cartas que ela achou que poderiam comprometer Motta aos olhos do juiz, e nenhuma que mostrasse que o Sr. Germer confiava em Motta, ou que mencionasse o trabalho que ele estava fazendo para o Sr. Germer. O que segue é uma paráfrase de memória:

"Eu simplesmente fiz o que você me disse para fazer. Eu me assinei ‘Sol no Sul’ porque o Sol é importante no meu horóscopo, já que meu ascendente é Leão; e porque afinal de contas, eu sou do sul. Eu achei que soaria misterioso e o impressionaria. Quanto a ‘sacerdote dos príncipes’, isso, claro, simplesmente significa que eu sou um sacerdote administrando as necessidades de Adeptos Menores..."

Motta estava na época sob a ilusão de que ele era um Adeptus Minor, precisamente como Phyllis (então Wade, e precisamente pelos mesmos motivos. Veja-se Liber LXV v 48-51 e os comentários sobre esses versos. O Sr. Germer estava extremamente preocupado com ele.

Motta terminou a carta com o que nós consideramos era uma critica justa: "... Mas eu realmente não compreendo por que essa gente desperdiça um ano inteiro sem escrever a você e então lhe escreve só para se queixar de mim! Afinal, eu apenas pedi a eles que parassem de citar Liber AL erradamente, algo que eles deveriam ter estado dispostos a fazer eles mesmos."

O Sr. Germer pedira aos suíços que enviassem a Motta uma cópia da edição deles de Liber XV, como uma amostra do tipo de acabamento de que ele gostava. O livro fora enviado com um panfleto que se abria com "Tun das Du willst es soll sein das ganze Gezetz", ou, em português, "Faze o que Tu queres há de ser tudo da Lei."

A ênfase desencaminha profanos e é significativa para os iniciados experientes. Joseph Metzger, ao fazer isto, estava, claro, enfatizando o fato de que é a SUA Vontade, e não a de outros, que você deve fazer; mas ele estava esquecendo 1) que isto está perfeitamente claro no texto e 2) que poderia ser a Vontade de alguma pessoa a realização da Vontade de alguma outra pessoa, pelo menos por algum tempo ("os escravos servirão" é apenas um exemplo disto; os escravos servem porque querem servir). A "benevolente" preocupação do suíço em evitar que outras pessoas fizessem a vontade de alguém mais que elas mesmas era simplesmente uma projeção psicológica da parte dele; nem mesmo "compaixão", mas "piedade". Um exemplo, de fato, do "complexo de salvador" que tanto afeta estudantes principiantes que não tomam cuidado. O que Metzger estava realmente expressando era a sua revolta contra a obediência hierárquica. Ele não queria fazer o que a Cabeça Externa lhe estava dizendo para fazer, e projetando sua rebelião em outras pessoas.

Um mês após essa troca de correspondência Motta recebeu um telegrama de uma firma comercial no Rio de Janeiro, solicitando contato com ele. Ele foi, e encontrou um individuo chamado Kempter que lhe disse que recebera um pedido da Europa por informações sobre Motta e que, não tendo nenhuma disponível, ele gostaria de saber se Motta estaria disposto a fornecer alguma...

Kempter era, está claro, um judeu, embora Motta na época não estivesse cônscio disto; nem teria ele se perturbado se soubesse. O homem gerenciava uma firma bem sucedida de pesquisa de crédito internacional a qual era, claro, ao mesmo tempo, uma célula de "inteligência" sionista. Mas novamente, na época Motta não só era incapaz de perceber isto como nem sequer saberia ficar de sobreaviso se percebesse. Motta simpatizou com Kempter no momento em que o viu; infelizmente para ele ultimamente, Motta sempre teve uma tendência a gostar de judeus como pessoas; mesmo quando lhe causam dano. Este, claro, não era o caso de Kempter na ocasião; ele era apenas um instrumento de outros, como veremos a seguir.

Motta supôs erroneamente que o ramo suíço da O.T.O. requisitara informações sobre ele, e respondeu com a máxima franqueza todas as perguntas que lhe fizeram.

Como se vê, a paranóia de Motta é uma aquisição recente.

Duas semanas depois ele recebeu um telefonema em inglês de um indivíduo que deu seu nome como Oskar Schlag, asseverou que obtivera o nome e o endereço de Motta de Kempter, e convidou Motta a jantar com ele no hotel em Copacabana onde ele ficaria por alguns dias.

Oskar Schlag... Motta tinha certeza de que ouvira esse nome antes; e pensou que o ouvira do Sr. Germer. Ele escreveu uma nota ao seu Instrutor indagando a respeito, e marcou dia e hora para jantar com Schlag, absolutamente convencido de que o homem havia sido mandado pela O.T.O. suíça para sondá-lo.

Schlag, está claro, não fora enviado pela O.T.O. suíça coisa nenhuma. Motta publicara um livro sobre Télema, a A\ A\ e a O.T.O. em português, e por essa data as primeiras cópias de Liber Aleph estavam para sair do prelo. Ele estivera sob vigilância durante anos, mas apesar da insistência do Sr. Germer em apontar-lhe este fato, ainda não estava disposto a acreditar nele.

Schlag era um individuo atarracado, de meia idade, com o tipo de expressão facial que se vê hoje em dia nos funcionários do governo americano nomeados por Ronald Reagan: bem nutrido, cínico, e deliberadamente "esperto". Sua conversação com Motta foi-lhe muito lucrativa, pois até certo ponto Motta revelou seus pensamentos francamente, respondendo quaisquer perguntas que lhe fossem feitas; mas Schlag cometeu alguns erros que gradualmente puseram Motta em guarda. O primeiro foi sem dúvida uma conseqüência de informação errada prévia — ninguém senão a C.I.A. jamais pensou que a C.I.A. é perfeita. Ele requisitara que Motta se encontrasse com ele antes do jantar não no saguão do hotel ou no restaurante do hotel, mas em seu quarto, onde ele se apresentou afavelmente e a seguir pediu licença para fazer um chamado telefônico. Isto ele fez em alemão, e suas primeiras palavras foram "Das Knabe ist hier", que significam, aproximadamente, "O menino está aqui." Dizemos aproximadamente porque o alemão é um idioma muito preciso, com três gêneros: masculino, feminino e neutro. "Knabe" significa um mancebo do sexo masculino, mas é uma palavra neutra em alemão: leva uma conotação de falta de maturidade. Se você é um "Knabe", você não é um adulto, e não tem os direitos de um adulto.

O erro de Schlag consistiu em que ele obviamente não fora informado de que Motta estudara o alemão. Motta ouviu atentamente a conversação telefônica sem aparentar assim fazer: ser chamado de "Knabe" aos trinta anos de idade não apenas o afrontou, mas o fez curioso sobre o que estavam dizendo a respeito dele. Embora Schlag mantivesse o seu lado de conversação tão limitado a monossílabos quanto possível, Motta pode perceber que algum tipo de encontro estava sendo organizado que tinha alguma coisa a ver com ele. Ele não se preocupou muito com isto: ele pensou que o ramo suíço da O.T.O. decidira fazê-lo passar por algum teste. Porém, mais tarde, à mesa, Schlag negou com desdém que tivesse sido enviado a Motta pelos suíços. Seu desdém, que era genuíno, foi seu segundo – e fatal – erro, devido inteiramente a um auto-controle imperfeito e a um descaso pela inteligência de Motta, e foi muito revelador para Motta. Schlag detestava a O.T.O. suíça intensamente...

Na realidade, Motta não compreendera a situação perfeitamente. Não era a O.T.O. suíça que Schlag detestava; era a O.T.O. em si.

... Portanto, quem era ele, o que queria ele com Motta, e como descobrira ele a existência de Motta? Motta, que estivera falando pelos cotovelos sobre todo tipo de assuntos confidenciais ou pessoais, crente de que estava falando com um emissário da O.T.O., imediatamente caiu em guarda; mas já havia falado demais.

Schlag, embora Motta tivesse sido totalmente incapaz de perceber isto na época, era um agente triplo: ele trabalhava para os israelenses, a C.I.A. e o Vaticano; mas primariamente para os israelenses, como ocorre com todos os judeus que estão nesse ramo de atividade escusa. Os israelenses sempre buscaram associar Crowley com Hitler e o nazismo, mas não é este o real motivo de sua hostilidade por nós; meramente um pretexto conveniente. O verdadeiro motivo é que, não tendo absolutamente nenhum interesse na Palestina, não somos de qualquer auxílio a eles ou (poderá surpreender leitores pouco inteligentes ou politicamente ingênuos que isto importe aos sionistas) ao Vaticano; se crescermos em números, nosso sucesso material inevitavelmente enfraquecerá o prestígio tanto do Vaticano quanto de Tel Aviv, os quais chegaram a uma aliança maligna no presente em volta de dois interesses em comum: a Palestina e os cartéis internacionais.

O jantar de Schlag com Motta produziu três resultados de particular importância para o agente: primeiro, para sua surpresa e talvez desapontamento, ele descobriu que Motta gostava dos EE.UU.

Ele fora obviamente informado do contrário, possivelmente por Jean Sivohnen, cuja capacidade intelectual — como a dele — era insuficiente para distinguir entre crítica construtiva e hostilidade. Mas repetimos que na época Motta não tinha qualquer idéia de como Schlag estava bem informado sobre — se bem que, felizmente para Motta, não completamente bem informado em todos os detalhes.

Claro, registros de informações de serviços de "inteligência" laboram sob uma desvantagem que nesse tipo de trabalho pode ser fatal: avaliadores de dados só podem avaliar em termos de sua capacidade intelectual ou moral. A ambigüidade ética inerente em trabalho de espionagem torna difícil encontrar avaliadores de dados que sejam moralmente honestos, de mente aberta, e sensitivos para com nuanças sociais ou políticas. O que é pior, tais avaliadores melhores freqüentemente não recebem a devida atenção, ou são até punidos, quando fazem uma avaliação honesta e franca. Um exemplo, entre outros, foi o que aconteceu com os avaliadores de dados da C.I.A. na época da invasão da Baia dos Porcos: vários avaliadores avisaram que a invasão seria um fracasso. Não só não foi prestada atenção à opinião deles como até foram sujeitados a um inquérito confidencial, para se verificar se eles não eram agentes duplos, ou de lealdades divididas. O verdadeiro patriotismo, qual definido por Fernando Pessoa, é extremamente raro e vale seu peso não em ouro, que é um material relativamente comum, mas em plutônio, que é relativamente raro e simbólico da guerra nuclear que nos ameaça. Mas o verdadeiro patriotismo é mais temido do que apreciado por demagogos.

Em segundo lugar, Schlag descobriu que a Sra. Germer detestava Motta intensamente, pois Motta foi suficientemente tolo para dizer lhe isto. Sua técnica para extrair este fato de Motta foi pura e simples rotina: ele comentou com Motta, rindo como de uma piada, que "o pessoal da Califórnia" dissera que o Sr. Germer usava a Sra. Germer como uma espécie de oráculo; que quando ela "ficava inspirada e falava em línguas estranhas" na presença dele o Sr. Germer a escutava cuidadosamente e a levava muito a sério.

Isto, claro, provava que Schlag não só estivera em contato com os ex-membros da ex-Loja Ágape, mas também que eles haviam tagarelado com ele sobre o Sr. e a Sra. Germer. Motta não se surpreendeu, pois ele sabia que eles eram todos maliciosos fofoqueiros, e ele ainda estava sob a impressão de que Schlag viera do ramo suíço da O.T.O., e, portanto tinha conexões telêmicas. Ele comentou, meramente, "Ela me detesta", e nada mais disse sobre a Sra. Germer. Mas o dado era precioso para os propósitos de Schlag.

Motta ainda se lembra do sorriso leve e cheio de malícia do agente quando lhe disse que a Sra. Germer detestava o jovem brasileiro. A informação foi eficientemente empregada pelos chefes de Schlag, como os leitores poderão perceber à medida que prosseguirmos.

Finalmente, Schlag conseguiu a informação de que Motta imprimira Liber Aleph para o Sr. Germer, e imediatamente pediu para comprar uma cópia. Motta prometeu-lhe uma tão cedo elas fossem entregues pela tipografia.

Por seu lado, Schlag involuntariamente fez uma admissão muito reveladora a Motta: ele confessou que não só se considerava a re-encarnação do "Conde de Saint Germain" como também um avatar do "Mestre Racoczy" dos teosofistas de Besant e Leadbeater. Isto o colocou imediatamente entre falsos iniciados sob a influencia dos Qliphoth, e aumentou a guarda de Motta ao máximo.

Uma vez durante o jantar Schlag se desculpou; dizendo que tinha que ir ao seu quarto. Motta marcou a duração da sua ausência: ele levou quinze minutos para regressar.

Schlag estivera acertando os detalhes do que será descrito a seguir, e mudando a fita do seu gravador portátil miniaturizado, cujo microfone estava no seu relógio de pulso.

Após o jantar, Schlag insistiu em escoltar Motta do restaurante no último andar do hotel ao saguão, e em colocá-lo num táxi. Eles tomaram o elevador, onde já estavam três jovens. Enquanto Schlag conversava com Motta, um dos três, uma linda moça de cabelos escuros, ofereceu a Schlag uma rosa rubra com um sorriso silencioso. Schlag fingiu grata surpresa com o "presente". Os três jovens saíram do elevador no andar seguinte, enquanto Schlag discursava a Motta sobre "mensagens dos Mestres ocultos".

Os três jovens eram, está claro, sionistas recrutados para trabalhar para os israelenses, que preferem usar gente moça, tão próxima à adolescência quanto possível, para operações desonestas ou violentas. (Estudos por serviços de espionagem comprovaram que jovens de menos de vinte anos de idade são psicologicamente mais flexíveis e toleram distorções éticas melhor. A maior parte dos terroristas ativos, de qualquer ideologia, assim como a maioria dos assassinos profissionais, são gente de menos de trinta anos de idade.)

Nos degraus da entrada para o hotel, ainda falando de "mensagens" e de "mensageiros", Schlag comentou quão aparentemente aleatórias e inesperadas tais mensagens podem ser, e subitamente se curvou e apanhou um pedaço de papel que um homem caminhando em frente dos dois deixara cair. O pedaço de papel era uma nota de venda, no valor de 365 cruzeiros.

"Está vendo?" disse Schlag triunfantemente. "É o número de Abraxas!"

Infelizmente para ele, o tiro saiu pela culatra. Motta simplesmente pensou, "É o meu número, e a mensagem é para mim, não para você. E quando a moça no elevador te deu aquela rosa, era um presente de mim para você, que não tenho certeza de que você mereça". Mas em voz alta ele simplesmente expressou bem educada admiração pelo fato de Schlag ter tirado a sorte grande em sua loteria particular; pois devemos insistir, por surpreendente que isto possa parecer a alguns, que Motta é uma pessoa extremamente cortês.

A ironia da coisa toda era que se Motta não estivesse obcecado com a idéia de que ele era um Adepto Menor (em vez de, como ele era realmente, apenas um Neófito completo dando-se ares, portanto não realmente completo, se os leitores puderem entender o que queremos dizer!) ele teria percebido imediatamente que a situação inteira era uma arapuca armada com a finalidade de fazê-lo pensar que Schlag era um alto iniciado e merecia ser tratado como tal. O que salvou ele nesta ocasião foi sua presunção de tolo puro de que ele mesmo era um iniciado mais elevado do que ele era então. Seu Anjo o estava protegendo e guiando a despeito dele mesmo.

Foi apenas anos depois que ele percebeu o mecanismo da arapuca, depois de ter recuperado perspectiva mágica e após ter sido alvo de truques semelhantes repetidamente tentados com ele por espiões de serviços de "inteligência".

Motta prometera se encontrar com Schlag uma vez mais para lhe entregar a cópia prometida de Liber Aleph. Alguns dias depois ele recebeu uma carta do Sr. Germer que dizia, entre outras coisas:

...Parece-me que foi decidido que você deve ser iniciado no mundo subterrâneo de inimigos, espiões e esse tipo rapidamente, num período de sua vida mais jovem do que aquele em que eu fui, pelo menos... Assim que alguém entra em contato com Télema, especialmente se a pessoa trabalhou por Télema, ele ou ela recebe as mais gentis atenções; não apenas ataques. O que eles preferem é trazer a pessoa de volta ao rebanho, para sutilmente trabalhar contra 93 enquanto pretende ser um expoente a seu favor... Este, receio, é o caso do grupo suíço.

Sim, eu preveni você faz anos contra Schlag. Ele é um judeu, maçom asariano de alto grau, odeia a O.T.O., é um agitador político, formado em psicologia, parece ter bastante dinheiro à sua disposição, viaja pelo mundo inteiro, está em contato com coisas tais como C.I.A., o F.B.I., e não sei que mais. Ele tem possivelmente a maior biblioteca ocultista do mundo, tem todo pedaço de papel que A.C. publicou, tem coisas telêmicas que eu mesmo não tenho. A última vez que o vi foi em Nova Iorque em um hotel: ele se gabou de que tinha a única cópia manuscrita do Livro da Lei pela mão de A.C. Quando eu lhe disse que provasse a asserção, ele trouxe a cópia para me mostrar no carro, e eu imediatamente identifiquei a origem — para seu grande desapontamento...

À mesa, Schlag se gabara a Motta que ele possuía o original de AL; mas embora Motta fosse suficientemente ingênuo para crer que ele podia estar dizendo a verdade, a jactância não impressionou Motta com a importância de Schlag. Motta não considerava que a posse material do manuscrito fosse necessariamente um sinal de desenvolvimento espiritual ou autoridade telêmica — a não ser que o manuscrito estivesse nas mãos dele. Uma vez mais, salvo por seu Anjo a despeito de si mesmo!

... Ele freqüentemente está na América do Sul; o que ele está fazendo lá eu não sei...

Motta eventualmente pode juntar as peças desconexas de informação que ele possuía sobre Schlag num todo coerente, e assim entendeu a natureza e o propósito das atividades do agente; mas deixaremos que os fatos falem por si mesmo e que os leitores cheguem à suas próprias conclusões antes de apresentarmos as nossas.

... Eu creio que escrevi a você na ocasião...

Ele não fizera. Sua referência a Schlag fora passageira, mas a memória de Motta para nomes é muito boa, razão pela qual ele se lembrava de Schlag. Após receber esta carta ele releu as anteriores e encontrou a referência prévia.

... que ele entrara em contato com os assim-chamados "telemitas" em Los Angeles, Ray, Mildred, Jane, Phyllis, etc. Todos eles caíram no papo dele, acreditaram que ele era um emissário da Loja Branca, um Chefe Secreto, principalmente Jane, que ele viu a sós, recebeu dele um grande segredo, e que ela era uma escolhida!...

Obviamente, Schlag lhes armara arapucas semelhantes àquela que ele armara a Motta. Talvez sua falta de cuidado ao marcar o "encontro acidental na frente de Motta tenha sido devida à facilidade com que ele pudera enganar os "agapeanos" da Califórnia, Jane (Wolfe) enlouqueceu pouco após ser "escolhida" por ele.

Manipulação dos símbolos religiosos de qualquer grupo cultural é uma prática de espionagem muito mais antiga do que se pensa. De fato, hoje em dia é uma especialidade à parte no campo da guerra psicológica, classificada como tal nos currículos de treinamento de serviços de espionagem, e considerada extremamente útil, especialmente em tempos de guerra. Já era usada pelo serviço secreto britânico na era elizabetana; antes disso, já fora o meio através do qual os Romanos-Alexandrinos quase conseguiram destruir o verdadeiro Cristianismo e dizimar os judeus; foi a técnica que os paises europeus usaram para colonizar o resto do mundo. Schlag sabia que nós interpretamos incidentes de nossa vida diária como "tratos particulares entre Deus e a nossa alma". O que ele talvez não podia compreender é que esses que têm genuína experiência iniciática não podem ser enganados por um falso "trato" mais do que um ilusionista experiente pode ser enganado por um falso "milagre". Aliás, o Iniciado está em ainda melhor posição que o ilusionista: não podemos ser enganados nem sequer por "milagres" genuínos...

Uma semana após receber a carta do Sr. Germer, Motta foi ver Schlag novamente como prometera, levando uma cópia nova em folha de Liber Aleph consigo. Schlag recebeu-o muito afavelmente, perguntou o preço do livro, pagou por ele, e pediu que Motta escrevesse uma dedicatória.

Motta imediatamente entrou em guarda. "O livro não é meu," ele disse, "e não é um presente."

"Não tem importância," disse Schlag calorosamente. "Eu desejo ter uma lembrança sua. Por favor, escreva alguma coisa." Ele ofereceu o livro e uma caneta pronta.

Motta pegou o livro e a caneta e fingiu pensar. Ele viu Schlag se contorcer com ansiedade mal-contida, abrir a boca para fazer uma sugestão, fechá-la novamente e se forçar a olhar em outra direção. Motta escreveu, "A Oskar Schlag, com simpatia e admiração, Marcelo Ramos Motta", e deu o livro e a caneta de volta ao dono. Schlag abriu o livro com sofreguidão e leu a dedicatória. Sua expressão mudou. Ele olhou para Motta e disse, com surpresa e irritação na voz: "Você não tem muito respeito por mim!".

"Eu julguei que a dedicatória expressasse o contrário," disse Motta delicadamente; por dentro ele estava rindo.

O que Schlag esperara, claro, era alguma enormidade tal como "A 365, de 666". Isto seria útil para ele no plano material de duas maneiras diversas: provaria a ele pessoalmente que ele conseguira obter domínio psicológico sobre Motta através dos seus truques; e poderia ser mostrado a outros Telemitas no futuro como prova de quanto Motta respeitava e admirava Schlag "Abraxas", portanto de quanto Schlag merecia respeito e admiração. No plano mágico, simplesmente significaria que Motta tinha ficado moralmente louco por completo, e caído irrevogavelmente sob controle dos Qliphoth; isto era precisamente o que as forças sinistras manipulando Schlag estavam tentando conseguir.

Esta não foi a última vez que Motta se encontrou fisicamente com Schlag. Alguns dias depois o agente telefonou-lhe e pediu que Motta o levasse para ver o Pão de Açúcar, e lá pediu para tirar uma fotografia de Motta "para se lembrar dele". Motta consentiu.

"Por favor, levante seu indicador direito para que eu possa focalizar a câmera,"pediu Schlag.

Motta obedientemente levantou o dedo e foi fotografado nesta posição. Ele viu Schlag novamente sorrir maliciosamente enquanto tirava o retrato, e percebeu que caíra em outra armadilha. Mas o que, desta vez?

Ele compreendeu o que muitos anos mais tarde, lembrando-se das falsas fotografias de Crowley e outros iniciados sérios que circulam em falsas "ordens ocultistas". Seu dedo apontando para cima era uma postura clássica de "Jesus" e outros "santos" crististas apontando para o "céu" em pinturas católicas romanas. (Veja-se AL i 8-9 e os comentários desses versículos para esclarecimento deste ponto importante.) Em conseqüência, Motta não permitiu que se tirasse outra fotografia dele durante vinte anos: ele não queria que Schlag e seus cúmplices pudessem associá-lo com qualquer falsa "ordem". Ele compreendeu, finalmente, por que o Sr. Germer recusara visitar o quartel-general de "AMORC" com ele na Califórnia.

De posse do que ele julgava ser seu "premio de consolação" (e possivelmente sua revanche), Schlag finalmente parou de infligir Motta com sua companhia. Duas semanas mais tarde, Motta recebeu um telegrama da Suíça...

O domicílio de Schlag era Zurique, e o serviço de inteligência suíça tinha uma volumosa pasta sobre as suas atividades.

... O telegrama dizia que Motta podia ficar descansado e que Schlag não tentaria interferir com sua verdadeira Vontade.

"Isto é ótimo," Motta pensou, "mas quem define a minha Verdadeira Vontade, ele ou eu?"

Um mês depois, Motta passou pela Iniciação do Zelador e percebeu como tinha sido idiota em sonhar que era um Adeptus Minor. Ele escreveu imediatamente ao Sr. Germer renovando seu Juramento de Obediência à A\ A\ , enviou seu Juramento e Tarefa do Zelador assinados com a carta.

Três meses depois o Sr. Germer foi para o hospital. Supunha-se que ia ser uma cirurgia bem fácil: remoção da próstata. O Sr. Germer mesmo parecera confiante em suas cartas prévias, de forma que Motta não se preocupou.

Do hospital o Sr. Germer mandou-lhe uma carta, escrita na caligrafia da Sra. Germer, datada de 12 de outubro (aniversário de Crowley) de 1962 e.v. dizendo:

Aniversário de A.C.

93

Querido Marcelo, você tinha razão. Eu estive no hospital por três semanas e em vez de uma simples operação o fluido prostático teve que ser extraído por que o tumor tinha sido descoberto. Eu estou agora muito enfraquecido, e tenho que ficar de cama durante 3 ou 4 semanas e sinto muita dor.

Se você olhar o meu horóscopo você verá os mais extraordinários aspectos dos meus Saturno, Júpiter, Marte e Urano, os quais não ocorrerão até fevereiro ou março.

A segunda longa carta que você me escreveu...

Motta lhe havia enviado duas cartas compridas num intervalo de alguns dias relatando certas experiências, certa percepções, e pedindo conselho sobre alguns assuntos de ordem prática.

... deu-me mais prazer que qualquer outra nos últimos anos. Está claro que você está sendo guiado pelo Supremo Hierofante e se você segui-lo lealmente e persistentemente ao fito determinado, ele lhe guiará, contanto que algumas das iluminações que lhe serão dadas não influenciem o seu Ego novamente, como ocorreu com a sua Besta...

O Sr. Germer por algum tempo crera que Motta pensava que ele era a nova encarnação de 666. Motta não pensara isto, mas é uma obsessão muito comum com aspirantes preguiçosos. Não podemos entrar a fundo neste assunto, que é confidencial. Eles haviam se esmurrado (como diria Crowley) durante algum tempo, e o Sr. Germer finalmente se satisfizera de que Motta, embora certamente de ego inchado, não enlouquecera. Isto precedeu a Iniciação de Zelador de Motta por vários meses.

Boa sorte para você! Eu desejo escrever infinitamente mais, mas o espaço é pouco...

A carta estava escrita à mão numa folha de correspondência dessas vendidas pelo correio norte-americano, já com selo impresso e com uma área limitada para se escrever, provavelmente comprada para ele no próprio hospital pela Sra. Germer.

... Quanto à sua pergunta sobre escrever ou procurar emprego, no momento eu não posso ir a fundo no assunto.

Lembre-se da passagem em Liber 418 sobre a Abelha e o Boi. O M.T. pode, e freqüentemente tem que aceitar os mais baixos empregos ou servir patrões velhacos por algum tempo. Mantenha em mente NU "Que não haja nenhuma diferença feita entre vós"...! O mesmo se aplica a escrever.

93 93/93

Fraternalmente

e,

Karl

Era a última carta que Motta receberia dele.

 

 

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