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SERVIÇOS DE INTELIGÊNCIA NÃO SÃO INTELIGENTES

ou

A O.T.O. DESDE A MORTE DE CROWLEY

PARTE II

 

NOTA EDITORIAL: Esta história foi inteiramente escrita por Marcelo Ramos Motta. Porém, a fim de clarificar o assunto para os leitores mais sérios, comentários que explicam o texto, mas que foram fruto de pesquisa posterior, estão grafados em caracteres de estilo itálico. A matéria no texto em caracteres normais menciona o Sr. Motta sempre na terceira pessoa do singular. Isto não deve contundir os leitores. Foi feito para manter perspectiva.

Muitas datas referentes à parte deste relato ocorrida no Brasil podem ser dadas apenas aproximadamente agora.

Na terceira semana de outubro de 1962 e.v. Motta recebeu um telegrama inesperado da Sra. Germer. O texto não está mais disponível e terá que ser reproduzido de memória. O telegrama dizia: "Nosso Mestre está morrendo. Diga-me o que fazer. Sascha Germer."

Motta julgou que esse telegrama fosse um teste, e telegrafou de volta: "Não penses, ó rei, nessa mentira!"

Dois meses antes, Motta recebera uma carta do Sr. Germer dizendo que ele, Germer, viveria mais onze anos; por isto ele não acreditou no telegrama. Ele sabia que Crowley havia algumas vezes fingido ter morrido para testar seus alunos, e ele sabia que o Sr. Germer o testava continuamente. Mas sua resposta, de fato, fora inspirada. Nós não podemos entrar a fundo nisto num documento destinado ao público em geral.

Mas na primeira semana de novembro ele recebeu uma carta na letra da Sra. Germer:

West Point

Out. 30 62 (sic)

A Marcelo Motta:

Nosso amado Mestre está morto.

Ele sucumbiu a 25 de outubro às 20 h 55 m em horríveis circunstâncias.

Você é o Sucessor (ou Seguidor).

Por favor, aceite isto de mim, pois ele morreu em meus braços e foi sua última vontade (sic).

Quem é o herdeiro da biblioteca, por enquanto eu ainda não sei...

Motta foi três vezes chocado por estes cinco parágrafos. Primeiro, ele ainda sentia dificuldade em acreditar que o Sr. Germer morrera. Segundo, ele estava comovido e preocupado com o fato de que ele fora nomeado a Cabeça Externa; mas ainda estava em dúvida se isto não era ainda outro teste da sua lealdade. Terceiro, a sentença "Quem é o herdeiro da biblioteca, por enquanto eu ainda não sei" imediatamente o pôs em guarda. Se o Sr. Germer morrera, e o nomeara o Sucessor, obviamente ele era o herdeiro da biblioteca. Ele sabia que a Sra. Germer não gostava dele, e a recente experiência dele com seus parentes no assunto do testamento de sua mãe o levou a suspeitar que a viúva estava prestes a encetar uma manobra análoga se, de fato, o Sr. Germer havia morrido. A carta continuava:

Meu telegrama a si foi um pedido de socorro para salvar a Obra e a biblioteca, e eu pensei que você compreenderia, desde que ele deixou tudo aberto. Depois do que aconteceu durante a estadia dele no hospital eu estou morrendo de medo que alguma coisa acontecerá da mesma forma para destruir o trabalho da vida dele. O que eu sugiro é, tente conseguir um visto e voe para San Francisco, dali um vôo curto para Stockton ou Sacramento, depende de que avião você tome.

De Stockton ou Sacramento há diariamente um ônibus para Jacson. Em Jacson chame o Táxi nº 51 e pergunte por Irene. Ela trará você às 22 milhas para a casa, pois ela me transportou várias vezes durante a doença de nosso Mestre. Se você pode fazer isto, eu abriria com você todos os papéis secretos e tentaria encontrar o testamento dele.

Se esta não for a sua intenção, ou se você não puder fazer isto, eu não sei por quanto tempo eu poderei assegurar a biblioteca e todos os papéis importantes e as relíquias que são usadas para o Exorcismo da Missa, etc. A perspectiva é mais do que negra para a Obra e eu estou desesperada. Não me telegrafe, pois eu só peguei seu telegrama depois de quatro dias, estava lá no correio onde hoje eu tive a possibilidade de ir...

Esta última sentença perturbou Motta muito. Ele mandara seu telegrama para a caixa postal do Sr. Germer porque era o único endereço que ele tinha dos Germers. Se o que ela estava dizendo era a verdade, e o Sr. Germer realmente estava morto, não podia ela ter antecipado o desencontro e ido ao correio pegar o telegrama dele antes? Se o Sr. Germer o tivesse recebido, e lido a mensagem nele, talvez tivesse sobrevivido à ordália física que o levara à morte.

Mas Motta ainda tinha muito que aprender sobre a intensa emocionalidade da Sra. Germer e sua falta de senso prático.

Deve ser dito em sua defesa, que a Sra. Germer provinha de uma família rica. Em sua terra natal ela tivera criados que cuidavam dos detalhes da vida diária para ela. Mesmo sua fuga dos nazistas fora mais uma questão de dinheiro e subornos do que uma questão de argúcia: ela fugira com gente mais à par das coisas do mundo e mais senso prático do que ela. Seu temperamento era artístico, refinado, extremamente sonhador, como pode ser notado do seu estilo.

Você pode me escrever se quiser. Se você puder voar para cá depressa por alguns dias, isto poderia salvar a biblioteca. Eu tenho medo de que se alguma coisa acontecer comigo como aconteceu com ele,Télema estará no maior perigo...

Novamente, esta sentença perturbou Motta. Ainda embriagado com seu recente êxtase iniciático, ele acreditava (corretamente) que Télema estava sob a Guarda do Senhor do Aeon, e que quaisquer "perigos" que pudesse incorrer seriam apenas como sombras. Ele sabia que o Sr. Germer assim pensara, pois seu Instrutor repetidamente o censurara por sua falta de fé nos Chefes Secretos; e que a Sra. Germer pudesse duvidar e temer o preocupou muito. Isto demonstrava uma atitude espiritual errada por parte dela. Sua desconfiança e preocupação continuaram aumentando rapidamente com a leitura do resto da carta.

Muita gente interessada está perguntando sobre LIBER ALEPH, e um Doutor em Filosofia da costa leste escreveu que ele tomará o trabalho de Aleister Crowley como tema de sua dissertação. Eu informei o Sr. Weiser do que aconteceu.

Eu estou ansiosa por retirar todos os livros da biblioteca e colocá-los em caixotes, e pregá-los para que gente qualquer não possa botar os dedos neles. Mas primeiro eu tenho que achar o testamento dele...

De novo Motta ficou perturbado. Que história era essa de um testamento? Se o Sr. Germer, no leito de morte, o nomeara o Sucessor, esta era a sua última vontade, e o único testamento necessário!

É uma tradição invariável na O.T.O. que a Cabeça Externa prévia nomeia seu Sucessor ou Sucessora. Há apenas dois casos em que o assunto da posição de Cabeça Externa fica em aberto e sujeita a voto: se uma Cabeça Externa é deposta, ou se uma Cabeça Externa morre sem nomear seu Sucessor ou Sucessora. Em ambos os casos, só conta o voto dos Reis Nacionais; e em ambos os casos o voto deve ser unânime. Na ocasião de sua morte, o Sr. Germer — como Motta mais tarde viria a saber — havia expulso da Ordem ou havia cortado contato com todos os outros representantes da O.T.O. em diversos países com exceção de Motta. Ele enviara a Motta uma proposta de Patente da O.T.O., mas Motta nunca recebera esta proposta, que havia sido roubada pelo Serviço Secreto do Exército para servir ao Vaticano.

A sentença seguinte da carta o feriu profundamente:

Sua presença aqui em nada mudaria minha atitude para consigo, portanto não há qualquer perigo de que você seja pessoalmente incomodado por mim. Eu apenas apelo pelo seu auxílio para a biblioteca, para a Grande Obra, e o último desejo de nosso Mestre de salvar tudo e continuar a Obra pela qual ele deu sua vida preciosa e a última gota do seu sangue.

Sra. Kal Germer

P.S. O que quer que você decida, aja rápido, todo dia é precioso. Em 30 de outubro ele será cremado em Sacramento, onde eu serei a única testemunha quando seus restos terrenos virarão cinzas.

A tinta do postescrito estava borrada, evidentemente por lágrimas. Motta ficou comovido com o óbvio sofrimento dela, mas sentiu (e ainda sente) que pelo menos numa tal ocasião ela poderia ter se abstido de insultá-lo enquanto simultaneamente lhe pedia auxílio. Também, as contradições inerentes na carta mesma eram demasiadas. A Sra. Germer, ele pensou, queria usá-lo sob falsos motivos. Que história era esta de testamento? E por que esta preocupação com quem seria o herdeiro da biblioteca?

O Sr. Germer havia escrito a Motta recentemente, sugerindo que a biblioteca fosse movida para o Brasil e colocada sob a sua guarda. Na mesma carta, ele afirmara categoricamente que o trabalho de Motta no presente era no Brasil: que ele deveria permanecer no Brasil e preparar as coisas para receber e proteger a biblioteca. Motta considerara isto ainda outro teste: ele sabia que todos os assim-chamados "telemitas" nos Estados Unidos cobiçavam a posse da biblioteca, e não queria ser contado entre eles. Escrevera de volta ao Sr. Germer recusando receber a biblioteca e lembrando-lhe a carta em que dissera que ainda viveria outros onze anos.

Motta decidiu que a carta da Sra. Germer era uma armadilha, não necessariamente consciente; ele notara que ela nem abrira nem fechara a carta com a Lei. De qualquer forma, a grosseria da Sra. Germer no último parágrafo sugeria que ela não necessitava realmente da presença dele. Ele sabia que Phyllis Seckler vivia perto dela, e tinha certeza de que Phyllis a ajudaria. Assim, ele escreveu à Sra. Germer delicadamente, dizendo que no momento ele não tinha os meios para viajar aos EE.UU., aconselhando-a a pedir auxílio a Phyllis Seckler, e prometendo ir aos EE.UU. mais tarde, se as coisas melhorassem. Mentalmente, ele acrescentou: "Se ela for um pouco mais educada, e esclarecer esta história de testamentos e últimas vontades."

Deve ser observado que na época Motta ignorava totalmente os termos da Última Vontade e Testamento de Crowley. Se soubesse o que isto dizia, ele teria sido de muito mais auxílio ao Sr. Germer. O Sr. Germer nunca lhe mostrara o testamento de Crowley ou sequer o mencionara; e Motta nunca perguntara. O temperamento de Motta sempre foi de não meter o nariz onde não é chamado; e além disto, ele queria evitar dar qualquer chance às suspeitas que a Sra. Germer tinha dele. Na época, ele nem sonhava por que o Sr. Germer tinha tantas suspeitas dos seus "discípulos"...

Alguns dias depois Motta recebeu mais duas cartas dos EE.UU.: uma de Phyllis Seckler, dizendo que ela estava ajudando a Sra. Germer e que a Sra. Germer estava procurando o testamento do Sr. Germer. Phyllis acrescentou que a Sra. Germer lhe havia dito que bem possivelmente Motta fora nomeado herdeiro da biblioteca no testamento do Sr. Germer.

Esta carta irritou Motta. Se o Sr. Germer dissera em seu leito de morte que Motta era o Sucessor, se estas haviam sido (como a Sra. Germer afirmara em sua carta, escrita no calor da dor) suas últimas palavras, que importava qualquer testamento prévio? Sua convicção de que a Sra. Germer estava se recuperando de sua dor e se lembrando de que não gostava dele aumentou.

A outra carta era de Fred Mendel, cunhado de Donald Weiser e gerente da Livraria Samuel Weiser em Nova Iorque. Ele, também, informou Motta da morte do Sr. Germer, e perguntou que destino Motta queria que fosse dado à renda da venda das cópias de LIBER ALEPH.

Motta escreveu a Phyllis Seckler estimulando-a a continuar ajudando a Sra. Germer, mas não pôde deixar de perguntar-lhe em privado se o Sr. Germer realmente morrera; ela ainda duvidava... Escreveu a Fred Mendel declarando que LIBER ALEPH pertencera ao Sr. Germer, e que ele queria que a renda fosse paga à sua viúva, a Sra. Germer.

Motta estava, nessa época, quase completamente na miséria. Seus parentes haviam roubado a maior parte de sua herança materna e ele gastara o pouco dinheiro que recebera imprimindo LIBER ALEPH e um livro em português sobre Télema, a A...A... e a O.T.O. O nome do livro era "Chamando os Filhos do Sol". Motta o publicou sob o pseudônimo de "M."

No dia 9 de dezembro Phyllis Seckler escreveu a Motta outra carta, dizendo que o Sr. Germer realmente morrera, e censurando Motta por duvidar disto. Ela acrescentou que a Sra. Germer finalmente achara o testamento do Sr. Germer, e que "naturalmente" a Sra. Germer fora nomeada executora do espólio. Motta também fora nomeado no testamento, mas apenas como um "herdeiro místico".

"Lindo", Motta pensou. "Exatamente o que eu antecipara". Ele escreveu a Phyllis pedindo detalhes.

Na realidade, a Sra. Germer mentira a Phyllis. O testamento que ela encontrara estava datado de 1951 e.v., dois anos antes de Motta entrar em contato com o Sr. Germer, e dizia:

Esta é a minha última vontade e testamento:

No caso de minha morte ou acidente eu deixo toda a minha propriedade e posses para a minha querida esposa Sascha Ernestine Andre-Germer como única herdeira. Isto se refere à minha propriedade pessoal, da qual ela é a administradora única. No que concerne à propriedade da Ordem Ordo Templi Orientis, da qual eu sou a Cabeça, eu determino que isto será passado às Cabeças da Ordem, mas que minha esposa, a Sra. Sascha E. Andre-Germer, deverá ser a executora desta parte de meu testamento, com Frederic Mellinger IXº da O.T.O. Eu determino que meu corpo seja cremado.

Karl Johannes Germer

New York, N.Y.

4 de dezembro de 1951 e.v.

Seguiam as assinaturas de duas testemunhas, uma delas Frederic Mellinger.

Como se pode ver, nenhuma menção de Motta como "herdeiro místico" ou herdeiro de qualquer outro tipo; nem poderia haver, já que Motta nem aparecera ainda na vida dos Germers. A Sra. Germer, temerosa de que Motta a abandonaria, temerosa de passar seus anos de velhice na miséria, tencionava manter o mancebo dependente da vaga promessa de que, em alguma data futura, ela o deixaria ter aquilo que seu marido, ao morrer, lhe dissera que deveria passar à responsabilidade dele imediatamente.

Nisto ela julgou Motta muito mal; e ela pagou um preço terrível por este erro de julgamento. O problema foi que Motta e a O.T.O. tiveram que pagar com ela.

A 6 de janeiro de 1963 e.v. Phyllis Seckler escreveu outra carta a Motta. A Sra. Germer se recusara a lhe mostrar o testamento, e meramente lhe disse que o nome de Motta estava no testamento, mas que ele não era, como a princípio ela dissera a Phyllis, o herdeiro da biblioteca. Aliás, Phyllis acrescentou diplomaticamente, a Sra. Germer tinha um temperamento bem artístico, e ficava zangada quando lhe faziam perguntas ou lhe pediam detalhes.

"Exatamente como eu pensei que seria", foi a reação de Motta. Mas ele tinha a sua Iniciação, e o Beijo do seu Anjo; isto lhe bastava. Que o tempo lidasse com o resto. Ele se ocuparia com o seu progresso e em responder às perguntas que lhe chegavam de leitores de "Chamando os Filhos do Sol".

No dia 26 de janeiro de 1963 e. v. a Sra. Germer escreveu a Motta outra carta contendo o seguinte parágrafo:

Você ainda assim foi a última "grande alegria" na vida tão atribulada dele. Você é jovem, você é o futuro da Obra. Eu não acreditei quando Karl disse "Ainda demora outros dez anos antes de fazermos de Motta o herdeiro!" Mas espiritualmente você é o herdeiro dele... Eu considero o testamento de Karl uma tarefa santa, e o testamento será cumprido em todos os seus detalhes."

"Grande", Motta suspirou. "Agora eu sei por que ele me escreveu dizendo que ia viver mais onze anos. Será que a mulher não consegue compreender que a situação mudou, que assim que me tornei capacitado para ocupar o cargo ele ficou livre para passar ao estágio seguinte? E por que ela não me deixa saber exatamente o que ele disse no testamento, quais as disposições do mesmo?"

Ainda assim, ele ficou quieto. Quando ela começar a receber dinheiro dos Weisers, ele pensou, ela perceberá que eu estou de boa fé e que não tenho ódio dela.

Pouco após o Equinócio de Primavera Motta recebeu um panfleto da "Criança nº 17 ½" Suíça, declarando que ele fora eleito Cabeça Externa da O.T.O. pelos seus membros suíços... Para grande alívio do Vigilante Invisível, Motta rasgou este panfleto cerimonialmente em cruz e jogou os pedaços na cesta de lixo mais próxima, onde era o seu lugar.

No dia 7 de junho, Motta escreveu à Sra. Germer, pedindo-lhe os nomes dos suíços que haviam assinado o "Manifesto de Primavera" em questão, inclusive o nome da "Criança nº 17 ½"; pois o documento continha apenas motos. Sua carta não teve resposta.

Motta não saberia o nome de Joseph Metzger por mais dez anos. Os nomes dos outros assinantes daquele notável documento ele ignora até o dia de hoje.

No dia 1º de julho Motta escreveu novamente à Sra. Germer, censurando-a por sua conduta desde a morte do marido. Esta carta também ficou sem resposta.

No dia 30 de agosto, Motta escreveu mais uma vez à Sra. Germer: "Eu lhe peço urgentemente que me escreva com clareza quanto às últimas disposições de Karl no que concerne à O.T.O. e a Ordem oculta sob o nome de Télema. Eu quero saber quem é a C.E.O. Se é você, eu me curvarei a você como um Irmão do IXº que sou; se é qualquer outra pessoa; você não precisa me dar o nome dele ou dela, apenas me diga que sabe quem é, e por favor informa a C.E.O. de que eu, A., Zelador da A...A... e Homem da Terra de Télema, solicito uma Patente para executar trabalho oficial da O.T.O. no Brasil".

Também esta carta ficou sem resposta. Por então, Motta recebeu uma carta de Phyllis Seckler, criticando a conduta do Sr. Germer e oferecendo-lhe instrução "iniciática"! Motta escreveu de volta que ela não tinha condição de instruí-lo; que ela confundira a Visão Central de Malkuth com a Visão Central de Tiphereth; que ela era apenas um Neófito, se bem que completo; e terminou a carta dizendo, "Se você quiser progredir além do estágio presente, abandone suas consecuções ilusórias e beije seu Anjo de novo".

Phyllis Seckler não escreveu de novo a Motta durante vinte anos, no intervalo dos quais ela gradualmente caiu da Árvore obcecada por sua terrível ilusão. Veja-se LXV vv 48-56, e os comentários sobre esses versos.

A 15 de dezembro daquele ano, a Sra. Germer finalmente escreveu a Motta. Ela não respondeu a nenhuma das perguntas dele sobre a Sucessão, mas em vez disto deu-lhe uma notícia estarrecedora: "Antes de que eu definitivamente mande minha Petição ao advogado e aos tribunais desejo ter certeza de se uma Patente enviada a você a 20 de abril de 62 (sic) está nas suas mãos ou não. Foi isto que eu falei imediatamente após a morte de Saturnus. Nisto você tem o direito de abrir uma Loja e ensinar até o IIIº Grau inclusive... Esta carta escrita por Saturnus daria alguns direitos a você, já que você pode ser a cabeça de sua própria Loja no Brasil. Mas por favor não misture isto com ser a Cabeça Externa".

Esta Carta Patente, claro, nunca chegara às mãos de Motta. Havia sido roubada pelo Serviço Secreto do Exército, que fora informado de que Motta era um perigoso terrorista e — naturalmente — um pervertido sexual. Mas Motta naquela época não sabia da interferência do Serviço Secreto do Exército em sua vida (mais tarde diremos como ele se tornou cônscio disto). Na ocasião, ele simplesmente achou que a Sra. Germer lhe estava mentindo: que o Sr. Germer a instruíra para que dissesse a ele que ele era a nova Cabeça Externa, mas por causa do desafeto que ela lhe tinha ela estava tentando colocá-lo numa situação subordinada a ela.

Esta idéia não estava totalmente errada. Entre os documentos produzidos em Maine, U.S.A., por Grady Louis McMurtry para ajudar Weiser contra Motta estava uma cópia do último Diário do Sr. Germer anotado pela Sra. Germer. McMurtry e Weiser afirmaram que a Sra. Germer havia mentido a Motta sobre as últimas palavras do Sr. Germer, porque na página relativa a 25 de outubro de 1962 e.v. não havia nada descrevendo-as. Mas exame do texto revelou que a Sra. Germer escrevera suas anotações meses após a morte do Sr. Germer. Sua principal preocupação e tema era sua falta de fundos e sua preocupação com a insegurança do seu futuro se a biblioteca deixasse as suas mãos. Ela escreveu uma lista de tudo que ela tinha feito por Télema: todo o dinheiro que ela dera ao Sr. Germer para publicar livros de Crowley, todo o dinheiro que ela lhe dera para que ele enviasse a Crowley...

(Ela realmente fizera imensos sacrifícios financeiros, não por amor a Télema, que ela obviamente mal compreendia e pela qual ela não tinha muita simpatia, mas pelo marido, ao qual indubitavelmente ela amava muito profundamente, mas de forma muito pessoal. Esta era a raiz do problema, e um dos motivos por que Motta sempre tem evitado permitir que sua intimidade pessoal com mulheres o leve a imaginar que elas estão dedicadas à Obra, antes que a ele. Motta ainda não encontrou uma mulher que não trairia Télema no momento em que seu pênis, pequeno como é, deixasse de apontar para a vulva dela, por maior que seja. Isto o tem colocado na difícil posição de amar as mulheres como sexo, mas desprezá-las como indivíduos; de encorajar o feminismo em teoria, e ser constantemente desapontado por ele na prática. Ele ainda não encontrou uma mulher que pudesse ser um homem. Claro, ele também ainda não encontrou um homem que pudesse ser um homem, com a única exceção de Karl Johannes Germer; mas como ele não é emocionalmente atraído por homens, homens não representam uma tentação para ele; enquanto as mulheres, doces, sutis, belas, traidoras criaturas, acenam de todas as direções, por mais velho que ele fique!)

...Ela estava quase na miséria, e enfraquecendo por falta de alimentos suficientes. Mas Motta ignorava a situação dela porque ela era demasiado altiva e o detestava demais para se queixar ou explicar; ela não estava suficientemente faminta ainda.

Motta escreveu de volta à Sra. Germer: "Eu nunca recebi nenhuma Patente da O.T.O. Como pode você pensar que eu receberia um documento de tal importância e não confirmaria o recebimento? Quando foi mandado? Como carta registrada? Se não foi registrado, é inútil ir aos tribunais por causa disso..." E novamente ele lhe pediu informações sobre a liderança da Ordem: "...Se não há C.E.O., eu declaro que assumo a posição por direito iniciático. Por favor, tente se lembrar de que eu sou um Mestre do Templo — de acordo com as palavras do próprio Karl..."

Isto não dava a ele quaisquer direitos especiais na O.T.O., mas Motta ainda não estava suficientemente adiantado para perceber este fato. Também, ele ainda não se recuperara por completo do choque da morte do Sr. Germer e da carga residual da sua Iniciação de Zelador. Tragi-comicamente, ele se tornara a C.E.O. no momento em que o Sr. Germer a instruíra para que dissesse a ele que ele era o Sucessor; mas ele só compreendeu este ponto legal em 1984 e.v. em Maine, quando seu advogado explicou a ele.

Claro, mesmo que ele tivesse estado cônscio disto em 1962 e.v., de pouco lhe teria valido: ele desconhecia o texto do testamento de Crowley ou a situação dos direitos autorais do mesmo. Ninguém considerara necessário informá-lo disso — como "agente do F.B.I.", era pressuposto que ele já estivesse à par de tudo! A hostilidade da Sra. Germer eventualmente os prejudicaria a ambos terrivelmente.

Motta terminou a carta dizendo: "...se essa patente que você quer me mandar estiver sujeita à ‘autoridade’ do suíço — eu nada quero com ela... O suíço está doente".

Que você quer me mandar sugeria, claro, que ainda não fora enviada, e que se duvidava da palavra dela. Se a Sra. Germer fosse uma profana, Motta provavelmente teria escrito com mais tato; mas supostamente ela era uma Irmã da Ordem, e aos seus Irmãos Motta sempre sentiu que ele deve absoluta franqueza. (Ele ainda mantém essa posição, freqüentemente para dissabor seu ou deles.) Esta carta não foi respondida, e durante os CINCO ANOS seguintes a Sra. Germer não escreveu a Motta, nem Motta lhe escreveu. Ele continuou, entretanto, a enviar carregamentos de Liber Aleph a Samuel Weiser, Inc. quando quer que Fred Mendel lhe pedia mais livros. Ele tinha certeza de que a Sra. Germer estava recebendo o dinheiro, e pelo menos estava tendo alguma ajuda financeira da parte dele. Talvez com o tempo ela mudasse de atitude e fosse mais amigável.

Quanto a Motta, sua situação material piorou progressivamente. Não podemos entrar a fundo neste assunto, porque, como já foi observado antes, esta não é uma história dos problemas de Motta, mas dos problemas da O.T.O. Falamos dos problemas de Motta apenas para ajudar o leitor a compreender como é que serviços de "inteligência" podem ser manipulados a ponto de se tornarem destrutivos mesmo para o país que supostamente eles foram organizados para defender.

Embora Motta não percebesse isto naquela época, ele era um homem marcado. Ele entrara na "lista negra" nos EE.UU. no momento em que estabelecera contato com o Sr. Germer pela primeira vez: J. Edgar Hoover (chefe do F.B.I.) fora imediatamente informado. Quando Motta voltou ao Brasil, a vigilância piorou, pois se o F.B.I. e a C.I.A. estão nas garras do Vaticano (os Diretores de ambos são invariavelmente católicos romanos), serviços "brasileiros" de "inteligência" são literalmente administrados por padres romanos ou leigos membros do "Opus Dei". A não ser que você seja um católico romano, você não será nomeado para um cargo de responsabilidade, e se você não for um cristista ou uma cristista você não poderá trabalhar para os serviços secretos brasileiros. Mesmo agentes sionistas como Oskar Schlag são olhados com desconfiança, a despeito da tênue aliança atual entre Tel Aviv e o Vaticano.

Quando Motta publicou "Chamando os Filhos do Sol" em português, imprimiu Liber Aleph em inglês, e começou a enviar cópias de um livro de Crowley para os EE.UU., a rede "brasileira" de "inteligência" foi imediatamente alertada. Ele estivera ganhando a vida, mais ou menos, escrevendo peças de televisão para redes brasileiras; seus originais começaram a ser sistematicamente recusados. Era-lhe permitido apenas fazer adaptações, a maioria de obras literárias de pelo menos um século de idade; e mesmo estas adaptações eram submetidas a uma pesada censura. Pagavam-lhe por peça, e mal; embora ele trabalhasse duro, e trabalhasse bem — uma de suas telepeças recebeu cinco prêmios — e fosse constantemente cumprimentado por atores, nunca lhe ofereceram emprego em direção ou produção, o que era o que ele mais desejava. Ele interpretou isto como a severidade das ordálias; não percebeu que era antes o ódio e o medo da "elite" católica romana por Télema. Ele não percebeu que estava fichado, que era vigiado. Ele seria usado, e abusado, mas não poderia trabalhar onde seu talento pudesse influenciar a massa social. Ele nem sequer percebeu que as pessoas que o estavam usando, e abusando dele, secretamente o temiam, o odiavam, e se divertiam em fazê-lo sofrer. Como diz Eliphas Levi, "Eles partirão em cinco pedaços a bisnaga de pão de que o Magista necessita, para que o Magista tenha que lhes pedir pão cinco vezes".

A situação política diariamente piorava: a inflação brasileira chegou a mais de cem por cento ao mês.

Isto, claro, era parte da manobra dos cartéis para derrubar o governo democrático então no poder: aquele governo instituiria tarifas para proteger a indústria nacional e para impedir que o capital estrangeiro monopolizasse a economia. Agentes provocadores — a maioria brasileiros secretamente pagos pela, e trabalhando sob orientação da, C.I.A., do Vaticano e de Tel Aviv, manobravam para levar a instabilidade política a um ponto em que a opinião pública permitisse a intervenção do cuidadosamente pré-condicionado Estado Maior do Exército, os componentes do qual haviam todos, sem exceção, sido treinados em Langley, na Virgínia, U.S.A. (sede da C.I.A. americana) ou em Washington. Um exemplo das técnicas empregadas terá que bastar no espaço de que dispomos (as técnicas têm sido sempre as mesmas nos últimos trinta anos em todos os países do assim-chamado "Terceiro Mundo"): Um agente formou uma associação de sargentos do exército (supostamente ele era também um sargento). Ele era vociferantemente marxista-leninista e favorável à União Soviética, e instigou os sargentos contra os oficiais, afirmando que os sargentos faziam todo o trabalho sujo enquanto os oficiais viviam do bom e do melhor e eram pagos quatro vezes mais (o que era verdade então e é ironicamente verdade ainda; porém, num exército onde os oficiais têm mérito, é assim que deve ser). Ele abertamente incitava os sargentos à revolta e fazia as mais absurdas asserções, tais como que os clubes dos oficiais deveriam ser tomados destes e dados aos sargentos. Quinze anos após a assim-chamada "revolução democrática", alguns dos registros dos serviços de inteligência norte-americanos desses anos foram abertos ao público: deles se ficou sabendo que esse homem, trabalhando para a C.I.A., preparara uma lista extensa de todos os sargentos que eram realmente marxistas, ou dos sargentos que eram perigosamente inteligentes: estes homens foram sumariamente executados assim que o exército assumiu o poder. O "sargento" mesmo sumiu. Nem se sabe se ele era realmente brasileiro. As fotografias da época mostram um homem bonito, atlético, de fisionomia compenetrada e expressão altamente "patriótica".

Gloria Steinem, a líder "feminista" norte-americana, tem sido acusada por grupos gay de executar um tipo análogo de serviço para a C.I.A.; documentos têm sido publicados expondo sua suposta ligação com os departamentos de guerra psicológica dos serviços secretos norte-americanos. Deve se notar que a revista pseudo-feminista de Steinem, "Ms." (na realidade, do nível geral da comunicação de massa norte-americana), sempre parece encontrar financiadores, enquanto legítimas publicações feministas, marxistas ou não, têm que lutar duramente para sobreviver.

Tornando as coisas ainda piores para si mesmo (no entanto, ironicamente, como os leitores verão, assegurando sua sobrevivência durante o "purgo democrático" por vir), Motta escreveu, nove meses antes da assim-chamada "revolução democrática", o que desde então se tornou conhecido como Carta a um Maçom. Anexamos aqui a nota bibliográfica que mais tarde ele escreveu sobre este panfleto da O.T.O.:

"Esta carta foi originalmente escrita em 9 de julho de 1963 e.v., endereçada a um maçom asariano, um médico chamado Luiz Gastão Costa Souza, de Petrópolis, Estado do Rio de Janeiro. Mais tarde outro maçom Asariano e ex-discípulo, Euclydes Lacerda de Almeida, disse a Motta que o Dr. Gastão cuidadosamente conservara a carta, mas não a mostrara a seus irmãos maçons asarianos conforme lhe fora pedido.

"Após o Primeiro de Abril de 1964 e.v. ...

A data em que a Junta brasileira de generais e cardeais lançou a sua assim-chamada "revolução democrática". Mais tarde, por causa das piadas que a população fez sobre a data (oh, tão apropriada!), a Junta oficialmente decretou que a "revolução" começara a 31 de março, não no Primeiro de Abril. Mas o golpe realmente estourou no dia Primeiro de Abril: a Junta usara simbolismo astrológico e mágico, não necessariamente porque eles criam nestes, mas porque eles conheciam as crenças da massa popular, e tencionavam manipulá-las para seu proveito. Agentes como Oskar Schlag lhes foram muito úteis nisto.

"...o autor, sem fundos suficientes para ter o original copiado ou impresso, ele mesmo bateu à máquina muitos carbonos da carta e os distribuiu nas ruas do Rio de Janeiro a quem quer que ele se sentisse impelido a oferecer uma cópia, homem, mulher ou criança..."

Por essa data um agente da polícia secreta que vivia na mesma pensão que Motta (que fora viver nesse endereço por recomendação de ainda outro agente!), e com o qual Motta às vezes jogava baralho, disse a Motta em particular que esta atividade de distribuir cópias da carta às pessoas nas ruas estava perturbando muito a Arquidiocese do Rio de Janeiro. Assim mesmo, Motta continuou demasiado desligado para perceber que estava sendo estritamente vigiado! Ele persistia em interpretar todo fenômeno como um trato particular entre Deus e a sua alma. Claro, num certo senso ele estava tomando a atitude mais correta.

"...a versão original desta carta terminava com as seguintes palavras:

"Dr. Gastão, este é um dos momentos mais graves da história da humanidade. Dos quatro cantos do mundo forças hediondas, diabólicas, desalmadas, estão concentradas num ataque contra o Homem, Deus, a Justiça e a Verdade. Os comunistas encarnam um aspecto dessas forças; as religiões organizadas do Aeon passado encarnam outras. No presente, os seres humanos ainda em contato com os planos espirituais são extremamente poucos; no entanto eu levanto minha voz em profecia e lhe digo: Esta é a escuridão do Equinócio dos Deuses.

"No Novo Aeon, os bodes, não os carneiros, construirão a Igreja.

"A Maçonaria é a chave do Templo de Deus.

"Eu preveni o senhor quando nos vimos pela última vez: se os maçons brasileiros lutarem por limpar a Maçonaria das forças malignas que nela tentam se infiltrar; se eles acordarem novamente para a luta espiritual e para a luta cívica, terão todo o apoio preciso. O Olho ainda está no Triângulo.

(Claro, não é o "mesmo" Olho que antes; mas este não era e não é o ponto; nem poderia aquele médico corrupto ter sido capaz de compreender isto melhor que os leitores profanos.)

"MAS SE VÓS FIZERDES PACTOS COM DEMÔNIOS, O OLHO SE FECHARÁ SOBRE VÓS.

"Não se pode ser maçom e ser católico romano.

"Não se pode ser marxista e ser maçom.

Esta última asserção era possivelmente a expressão de um preconceito; mas a asserção prévia era correta. O catolicismo romano ofende contra todos os versos de Liber OZ; o marxismo, como filosofia e teoria econômica, não. A objeção de Motta ao marxismo era tópica: ele sabia que o marxismo, praticado num país condicionado por qualquer dos credos crapulosos, se torna uma tirania tão intolerável quanto aquela de Inquisições. A população está pré-condicionada às formas mais baixas, mais grosseiras do instinto do rebanho. Compare-se a evolução do marxismo em países crististas e islâmicos com sua evolução no Japão e na China.

"Limpai as Lojas! Ou o Olho se fechará sobre vós.

"Calafetai as Lojas! Ou a energia espiritual que nelas se acumula escoará (este é o motivo por que vosso segredo é vossa força).

"Servi vosso país antes de qualquer outro; sois brasileiros, e o progresso — como a caridade — começa em casa. Daí aos pobres do vosso excesso, mas não da vossa substância...

(Esta era uma referência ao crescente domínio do capital estrangeiro sobre a economia brasileira: este "maçom" defendera a infiltração com o argumento de que outros países necessitavam dos recursos brasileiros para poderem sobreviver... Por "outros países", é claro, ele queria dizer os cartéis.)

"...Sede verdadeiros maçons; maçons dignos dos que vieram antes de vós, que fizeram a Independência, o Segundo Império e a República.

"Nunca temais lutar pela Verdade e pela Justiça, e perdoai vossos inimigos — mas vencei-os, antes!

"Não agradeçais à Igreja de Roma pelas concessões que ela vos parece fazer. Ó meus irmãos (pois como seres humanos somos todos irmãos)...

(Este "maçom" zombara de Motta porque Motta não era membro da maçonaria asariana, e por isto não conhecia os "segredos" maçônicos. Ironicamente, naquela época já se podia ir a uma biblioteca pública, pegar um volume de uma enciclopédia maçônica, e ver todos os rituais dos diversos ritos maçônicos ali impressos. De fato, Motta fizera exatamente isto, para ver de onde vinha a O.T.O., e assim poder saber melhor aonde a O.T.O. deve ir. Ele se sentiu feliz de ver que a enciclopédia não continha rituais da O.T.O. ou sequer referência à O.T.O. Mais sobre este assunto da publicação de rituais adiante.

Na ocasião de seu encontro em este "maçom", Motta se sentira magoado porque o Dr. Gastão não o achara digno de ser convidado a se tornar um de seu número. Desde essa época, várias vezes tem oferecido a Motta "iniciação" na maçonaria do velho aeon. Ele sempre recusou.)

"..., essas "concessões" são conquistas: não podeis ouvir os gemidos de dor? Não podeis ver os oceanos de sangue, não podeis relembrar as legiões de irmãos martirizados, não podeis mais sentir o fedor e ver o clarão dos ‘autos-da-fé’? A Igreja de Roma nunca fez concessões teológicas a não ser em troca de riqueza material ou poder mundano; ela sempre se aliou aos tiranos contra os oprimidos, e se aliará aos marxistas, se necessário for, para vos destruir; mas sede fiéis ao Olho, e o Olho vos servirá.

"Todo progresso humano; toda lei humanitária; toda proteção à ciência pura; toda a tolerância religiosa que agora existe sobre este planeta foi o fruto do trabalho da maçonaria. Nunca vos esqueçais disto! Não agradeçais ao inimigo por aquilo que o inimigo não vos deu, mas que conquistastes através do sacrifício de muitos e o trabalho paciente de todos.

"Eu vos repito: Sêde dignos do Olho, ou o Olho se fechará de vós."

"O Primeiro de Abril de 1964 e.v. não teria acontecido se os maçons brasileiros tivessem prestado atenção a esta profecia e agido de acordo. Em vez disto, a maçonaria brasileira, nos anos após essa carta, deu os seguintes passos para trás:

"1. Dividiu seu Oriente em duas facções antagônicas.

Isto, claro, agradou tanto à C.I.A. quanto ao K.G.B., e pôs o Vaticano em êxtase.

"2. Permitiu a publicação em jornais de fotografias do interior de Lojas e de trabalho de Lojas.

"3. Fez declarações públicas de aliança com a Igreja Romana."

"4. Espionou-nos e cooperou em tentativas de nos armar arapucas ou de descobrir nossos "segredos". Infelizmente para os interessados, não temos "segredos". Ponde um texto sobre o cálculo tensorial nas mãos de um ou uma estudante de ginásio, e deixai que leia à vontade; a não ser que seja um gênio, ele ou ela pouco ou nada entenderá...

Isto, claro, nada tem a ver com rituais, que não são como livros de texto, mas como exames. A publicação de rituais maçônicos os torna totalmente inúteis para trabalho maçônico — o que é o motivo por que os rituais escritos por Crowley foram impressos na Inglaterra e re-impressos nos EE.UU. Você poderia tentar avaliar a capacidade de um estudante universitário para passar de ano dando a ele ou ela de antemão as perguntas e as respostas para levar para casa antes do exame; a situação é exatamente análoga. Você não poderia realmente avaliar a capacidade do estudante desta forma; você não poderia avaliar o valor de um candidato a uma Ordem secreta dando-lhe os rituais iniciáticos de mão beijada. Mais sobre isto adiante.

"...Verdadeiros segredos NÃO podem ser revelados, porque sem vivência eles não podem ser compreendidos, ou sequer explicados da maneira mais franca e mais simples por estes que sabem. Falsos segredos apenas servem aos falsos mestres. Hoje, como em todas as idades, o mistério é o inimigo da verdade.

"Por causa do relaxamento e da inércia dos maçoNs brasileiros, a profecia da carta se cumpriu, e continua se cumprindo. A conseqüência é que hoje em dia a maçonaria brasileira está viva apenas em Télema e na O.T.O. Não mais reconhecemos quaisquer movimentos maçônicos do velho aeon.

"Uma palavra basta aos que têm ouvidos para ouvir; os cegos do espírito não aprenderão com mil discursos.

"Não existe Lei além de Faze o que tu queres.

"Rio de Janeiro, An LXXIII,

7 de janeiro de 1977 e. v."

Dez anos antes disto ser escrito, em abril de 1967 e. v., Motta recebeu novo pedido por livros da Livraria Samuel Weiser, que agora se tornara Samuel Weiser, Inc. Eles queriam mais cem cópias de Liber Aleph. Fazia então três anos desde a "revolução democrática". Motta perdera tudo com o golpe; durante algum tempo ele nem sequer tivera dinheiro para transporte, comida ou teto, e fora reduzido a viver no quarto de empregada de um apartamento pertencente a um conhecido judeu que ele considerava um amigo...

Este "amigo" era na realidade um agente israelense, e oferecera hospitalidade a Motta apenas para poder manter um olho no Telemita sem muito trabalho. Mas na época Motta ainda não se tornara suficientemente paranóico para perceber isto, e se sentia muito grato pelo teto sobre sua cabeça. De fato, ele ainda sente gratidão, embora saiba agora que o quarto de empregada não lhe fora cedido inteiramente sem aluguel!

...Mais de uma vez ele passara uma semana sem comer porque não tinha dinheiro para comprar comida; e andara quinze a trinta quilômetros por dia procurando trabalho, porque não tinha dinheiro para o ônibus.

Esta experiência o tornou intolerante com pessoas que se aproximam dos outros em pontos de ônibus ou estações de trens e tentam o conto do vigário do dinheiro da passagem; especialmente quando tais pessoas são jovens, como freqüentemente são. Quando lhes diz, "Se você não tem dinheiro para a passagem, vá a pé" ele não está lhes dizendo para fazer qualquer coisa que ele não tenha feito ele mesmo. Mas essas pessoas parecem não apreciar este fato, ou mesmo acreditar nele.

Ele se tornara (maldições estimulam!) um pouco menos idiota que nos seus dias de fartura, ou melhor, de menos falta; e como não tivera notícias da Sra. Germer em três anos e meio, ele resolveu conseguir alguma informação sobre ela de outra fonte. Antes de aviar o pedido, ele escreveu a Samuel Weiser, Inc. e perguntou se eles estavam mandando o dinheiro dos livros para a Sra. Germer como lhes havia determinado que fizessem.

No dia 9 de maio de 1967 e.v. Fred Mendel escreveu a Motta que quando Samuel Wieser, Inc. recebera suas determinações no fim de 1962 e.v. eles haviam escrito à Sra. Germer perguntando o que ela queria que se fizesse com a renda de Liber Aleph; ela lhes respondera que o espólio do Sr. Germer ia ser litigado nos tribunais na Inglaterra, e solicitara que eles guardassem o dinheiro para ela, "uma vez que ela tinha completa confiança em nossa relação com o marido dela". Portanto, durante todo este tempo eles não haviam efetuado nenhum pagamento.

Motta ficou lívido de fúria ao ler isto. Aqui estivera ele, passando fome durante três anos, a mulher não lhe escrevera em três anos, e obviamente ela nunca havia tido necessidade do dinheiro! Ele escreveu a Fred Mendel dizendo que queria que lhe enviassem imediatamente o dinheiro acumulado, e para continuarem a lhe enviar o dinheiro daí em diante; caso a Sra. Germer a qualquer tempo lhes perguntasse sobre o dinheiro, eles deveriam lhe mostrar a carta dele, e dizer a ela que entrasse em contato com ele diretamente.

No dia 24 de maio ele recebeu uma ordem de pagamento e uma carta de Fred Mendel, dizendo que daí em diante Samuel Weiser, Inc. faria os pagamentos por Liber Aleph diretamente a ele. O dinheiro, algumas centenas de dólares, era uma soma substancial em termos de cruzeiro "revolucionário" inflado; e salvou Motta, como o Sr. Germer diria, de diversas inanições. Ele o gastou com grande satisfação íntima. "Agora ela me escreverá", pensou ele, "assim que perguntar a eles pelo dinheiro".

O que Motta não percebeu então, nem poderia ter percebido, porque simplesmente não era de sua natureza imaginar que qualquer pessoa faria tal coisa, foi que desde o início os Weisers não haviam tido qualquer intenção de enviar dinheiro à Sra. Germer: eles faziam parte de uma conspiração para aliená-la de Motta e vice-versa. As cartas de Fred Mendel a ele eram deliberadas mentiras. Oskar Schlag era um "amigo pessoal" de Donald Weiser, e o dado da desconfiança e desafeto da Sra. Germer por Motta, que Motta mesmo lhe fornecera, havia sido de grande auxílio ao triplo agente e às camarilhas para as quais ele trabalhava.

Um ano mais tarde, a 7 de outubro de 1968 e.v., a Sra. Germer finalmente começou uma carta endereçada a Motta que ela só pode terminar e enviar a 3 de dezembro; mas a carta não foi escrita para censurar Motta por tomar o dinheiro. A carta, recebida por Motta perto do fim de 1968 e.v., começava assim:

"Uma carta recebida ontem da Inglaterra me faz tentar entrar em contato consigo... Para encurtar uma longa história devo lhe informar de eventos que são da máxima importância para si pois deram-me a entender que você não apenas ainda está ligado à Ordem mas é Cabeça de uma Loja onde prega a Lei..."

Isto era totalmente incorreto em todos os sentidos possíveis, e irritou Motta profundamente, uma vez que ela parecia ter esquecido não só a mensagem do marido no leito de morte como que ele, Motta, havia lhe escrito pedindo que enviasse a ele cópias dos Rituais para que ele pudesse trabalhar; e ela se recusara a assim fazer. Como podia ela lhe escrever que "lhe haviam dado a entender" que ele estava operando uma Loja quando ela sabia perfeitamente que ele não tinha em sua posse os rituais para tal fim?

Ele não percebia que ela, também, tinha recebido falsa informação a respeito das atividades dele. Ela tinha sido levada a crer que ele estava vivendo em fartura, exatamente como ele havia sido levado a crer sobre ela. Como se pode ver, quando serviços de "inteligência" se intrometem na vida dos outros, um pouco de paranóia pode ser uma vantagem para os "inteligenciados".

A carta continuava:

"… Foi-me perguntado se você tem uma Patente para tal fim, e alegrei-me em poder dizer: Sim! A Cópia da sua Patente estava nas suas pastas na biblioteca e se não foi roubada ainda deve estar lá..."

O leitor poderá talvez visualizar Motta pulando de fúria impotente. Que queria ela dizer com "se não foi roubada"? Será que a mulher não havia se dado ao trabalho de conferir após o roubo, e anotar o que faltava?

Ele não sabia que a mente da Sra. Germer estava, então, quase que completamente enfraquecida pela prolongada desnutrição. Deve se chamar a atenção dos leitores também para o fato de que o que ela chamava de "Patente" era simplesmente uma carta propondo que Motta aceitasse uma Patente para trabalhar com os primeiros três graus da O.T.O., com a condição de que ele mesmo se responsabilizasse pelo trabalho da Loja como Grão-Mestre.

Ela continuava a carta informando-o de que havia sido atacada por uma quadrilha liderada por uma das filhas de Phyllis Seckler, por instigação da mãe; que ela sabia havia sido borrifada com "mace" (uma forma intensificada de gás lacrimogênio em forma de aerosol usada pela polícia norte-americana) ao abrir a porta para a moça e seus companheiros, e depois amordaçada e amarrada a uma cadeira; que a casa havia sido vasculhada; que muitos objetos preciosos haviam sido roubados; que ela fora libertada apenas no dia seguinte, quando uma vizinha viera visitar.

A carta fora interrompida neste ponto, e continuada a 3 de dezembro:

"P.S., 3 de dezembro. Antes de eu poder enviar esta carta eu novamente caí doente, muito mais que da primeira vez, e estive doente o mês de novembro inteiro. Eu não acreditei que dessa vez eu me recuperaria, tão mal eu me sentia e tão magoada com este enorme roubo, todos os meus livros foram roubados. Eu perdi 2 LIBER ALEPH..."

"Aha!" Motta se endireitou. "Finalmente entramos no assunto de Liber Aleph.

(Deve ser observado que a Sra. Germer, tanto quanto Motta sabia, não escrevia a Motta havia anos, e que a referência dela a uma doença prévia era a primeira vez que Motta ouvia falar que ela estivera mal de saúde. É claro que ele não acreditou no que ela dizia; perdera totalmente a confiança nela.)

"... que Karl me deu de presente imediatamente quando você os enviou, e foi a última coisa que ele me deu antes de morrer. Eu tenho uma pergunta para você, e peço que seja franco em responder como eu sou em perguntar. Poderia você me dar de presente (eu não posso pagar por eles porque estou tão pobre que vivo com um dólar por dia com meus dois cães e meus dois gatos)..."

"Há!" Motta pensou. "Se ela anda tão faminta, porque não come seus cachorros e seus gatos?"

Mas é claro que a Sra. Germer estava realmente faminta, e tinha estado passando fome durante seis anos. A sintaxe dela, pior ainda que de costume, e a lógica confusa, foram interpretados por ele como uma tentativa proposital de lhe mentir; ele não podia esquecer que ela havia dito aos Weisers para guardarem o dinheiro que ele, de toda boa vontade, tinha oferecido a ela quando ele mesmo estava passando tanta necessidade. Ele não percebeu que a prolongada má nutrição e o total isolamento haviam afetado a mente dela; de fato, ele não acreditou que ela mal estava sobrevivendo na base de trinta dólares por mês, numa época em que o salário mínimo médio nos EE.UU. era de cento e cinqüenta dólares por mês!

"... Um livro eu gostaria de guardar para mim mesma e outro é para um ser humano digno de ser apresentado a uma das maiores obras de A.C. Como você sabe que as pessoas escutam falar apenas coisas más sobre o "pior homem do mundo" eu quero mostrar que tudo isso é calúnia, infâmia, etc. Eu acho que nenhuma obra seria melhor para mostrar o gênio e a grandeza de A.C. Poderá você fazer isso e me ajudar e à Grande Obra? Eu lhe agradeceria muito. Finalmente, não creia no conto de fadas que os membros da ex-Ágape andam espalhando, que eu sonhei a "história" toda, que a Estela nunca existiu, que as Patentes nunca estiveram na biblioteca e que todo o material da Ordem nunca existiu.

"E agora finalmente eu chego ao ponto sem retorno..."

Finalmente ela ia pedir a Motta auxílio financeiro; para uma pessoa de seu enorme orgulho, nada poderia ter sido mais difícil; ela estava realmente desesperada. Mas os intrigantes haviam trabalhado bem demais.

"...Como eu sustentei Karl 100% durante 20 anos e A.C. por 5 anos eu estou completamente na miséria, absolutamente sem dinheiro. Eu tenho que voltar ao hospital onde estive após este horrível ataque, me esvaindo em sangue de 19 de março a 27 de abril quando o ataque e a hemorragia terminaram! Agora não posso ir porque não tenho um tostão no bolso. Eu preciso de cem dólares urgentemente e pergunto se você pode ajudar! Se você quer ajudar, ou se lhe será permitido ajudar, é outra coisa..."

Motta, como era de se esperar, não acreditou nesta carta, e especialmente não acreditou que a Sra. Germer estava passando fome. Se ela estivesse passando fome, ele raciocinou, ela teria escrito aos Weisers para lhe mandarem o dinheiro dos livros. Ele escreveu de volta: "Se Phyllis realmente fez o que você diz, ela agora está sob a influência de seu Anjo Mau e caiu da Árvore; mas eu não acredito em você, Sascha. Você tem me mentido, e mentido a meu respeito, com demasiada freqüência para que eu acredite em qualquer coisa que você me diga".

Como já vimos, e veremos mais adiante, ela havia realmente mentido a ele, e escondido fatos dele e de seu colega testamenteiro do Sr. Germer, a fim de impedir que Motta assumisse imediatamente a posição de C.E.O.; mas o preço que ela pagou não foi um preço que Motta teria exigido que ela pagasse.

A Sra. Germer nunca mais escreveu a Motta. Ele escreveu a ela uma carta mais, seis anos depois, perguntando se ela havia permitido a publicação de novo material por Crowley. Esta carta foi aberta, lida, colocada em outro envelope, e devolvida a ele; mas não pela Sra. Germer. A caligrafia no envelope não era a dela, como pode ser facilmente verificado examinando o envelope e exemplos da caligrafia dela em envelopes anteriores.

Dez anos mais tarde, no Maine, Donald Weiser foi intimado a entregar para exame pelo tribunal quaisquer cópias ou originais de qualquer correspondência dele, de seu pai, de seu cunhado Fred Mendel, ou de qualquer empregado de Samuel Weiser, Inc. com o Sr. ou Sra. Germer nos trinta anos das relações comerciais deles com o casal. Weiser não apresentou nenhum documento, alegando que não tinha nenhum. O advogado que Mota tinha então, não insistiu; e Motta, que por essa época havia se tornado completamente paranóico (finalmente!), mudou de advogados. Seus novos advogados, que eram judeus e muito competentes, obtiveram as seguintes respostas de James Wasserman, que estava testemunhando sob juramento:

O advogado de Motta: "(Enquanto trabalhava para Weiser) o senhor se recorda de ter visto alguma vez qualquer correspondência ou outros documentos da autoria de Karl Germer com relação à questão da propriedade dos direitos autorais de Crowley?"

Wasserman: "Não."

O advogado de Motta: "Sascha Germer?"

Wasserman: "Não."

O advogado de Motta: "Permita-me insistir e perguntar, o senhor se recorda de alguma vez ter visto alguma correspondência dele ou para ela?"

Wasserman: "Com Weiser?"

O advogado de Motta: "Dela para Weiser ou de Weiser para ela."

Wasserman: "Certamente de Weiser para ela. Eu não sei se vi correspondência, mas Donald me contou que ele tinha escrito algumas cartas a ela e que ela não as respondera, sabe, antes de eu entrar para a firma."

O advogado de Motta: "E o senhor nunca viu tais cartas?"

Wasserman: "Não."

Este testemunho, se verdadeiro, chamava Fred Mendel de mentiroso, uma vez que Fred Mendel escrevera a Motta que a Sra. Germer recusara por escrito o dinheiro proveniente das vendas de Liber Aleph e afirmara por escrito que os direitos autorais de Crowley iam ser alvo de um processo na Inglaterra. Se o testemunho era falso, então consistia em perjúrio criminal, uma vez que Wasserman estava testemunhando para Donald Weiser sob juramento, com Donald Weiser sentado a seu lado, e desde que Donald Weiser já havia afirmado sob juramento que não tinha quaisquer registros de qualquer correspondência com os Germers.

Motta não podia engolir que Weiser não tivesse registro de correspondência com o Sr. e a Sra. Germer; nenhuma empresa financeiramente bem sucedida pode ser administrada num período de quarenta anos sem manter arquivos.

Mas ao ler a cópia do testemunho de Wasserman que lhe fora enviada, um dos discípulos de Motta escreveu-lhe que Richard Gernon lhe dissera que Wasserman dissera a ele, Gernon, que Donald Weiser tinha um arquivo cheio de correspondência com os Germers. Wasserman se oferecera para mostrar o arquivo ao seu amigo.

Isto, infelizmente, era um testemunho sem valor legal, por ser testemunho de terceiros. Por aí Motta já estava profundamente arrependido de não ter exigido uma cópia da suposta carta da Sra. Germer a Fred Mendel recusando o dinheiro quando Fred Mendel lhe escrevera pela primeira vez informando-o de que ela escrevera tal carta. Motta estava começando a acreditar, finalmente, que um judeu poderia deixar outro judeu morrer de fome, mesmo depois do celebrado "Holocausto". Compreensivelmente, ele se sentia também muito atormentado pela percepção crescente de que deixara a Sra. Germer morrer de fome porque fora suficientemente estúpido para crer em Fred Mendel em vez de crer nela. Ele não só sentia profundo arrependimento por sua tolice: ele sentia também profunda cólera contra os canalhas que haviam tirado vantagem da sua boa fé.

Motta enviou uma cópia do depoimento a todos os membros da O.T.O. que haviam conhecido Wasserman pessoalmente, esperando que um deles pudesse testemunhar que Wasserman lhe dissera a mesma coisa que dissera a Gernon.

(Por essa época Gernon já havia fugido para New York e estava se ocupando em ajudar Wasserman e Herman Slater a enganar o público vendendo falsas "missas gnósticas", falsas "conferências da O.T.O." e falso óleo "abençoado" de Abramelin.)

Nenhum dos outros membros da O.T.O. podia se lembrar de Gernon lhe ter dito qualquer coisa sobre cartas dos Germers aos Weisers. Finalmente, em desespero, Motta escreveu a um ex-membro da O.T.O., o Sr. James Daniel Gunther, que não tinha motivos para gostar de Motta; e perguntou se ele podia e quereria fornecer qualquer informação sobre o assunto.

A vida às vezes oferece surpresas agradáveis. O Sr. Gunther reagiu como um cavalheiro. Ele escreveu de volta:

"... Quando eu visitei a empresa Weiser pela primeira vez em New York me foi mostrado um arquivo de aço contendo uma volumosa pilha de cartas de Karl Germer a Weiser, todas muito bem organizadas. Aquelas que eu folheei tinham a ver com a publicação de O Equinócio dos Deuses. Mais tarde, durante o jantar, Donald Weiser disse-me que ele "estimara" o Sr. Germer e se correspondera com ele durante anos. Wasserman se ofereceu para copiar o conjunto inteiro das cartas para mim, pois havíamos discutido preservar isso para a posteridade. Claro, ele nunca fez isto."

O Sr. Gunther finalizou sua carta oferecendo-se para testemunhar em favor da O.T.O. se necessário. Foi-lhe poupada esta inconveniência porque o advogado de Motta, tendo levado Wasserman a admitir em juízo que traíra sem compunção a procuração que recebera de Motta, achou que já se tornara suficientemente claro para o juiz que Wasserman era, como disse um dos discípulos de Motta, "uma semana de más notícias".

(O advogado de Motta subestimou a pressão dos fundamentalistas que puxavam as cordinhas do fantoche Ronald Reagan e dos seus capangas.)

Os leitores podem imaginar o estado mental de Motta após ler a carta do Sr. Gunther. Havia uma única razão possível para que tanto Wasserman quanto Donald Weiser arriscassem mentir em juízo sobre a correspondência de Samuel Weiser, Inc. com os Germers: a correspondência devia mostrar que os Weisers e Fred Mendel haviam sempre agido de má fé para com os Germers, e conseqüentemente para com Motta. Nenhuma prova de correspondência de Fred Mendel com Motta foi fornecida a não ser o que foi fornecido pelo próprio Motta.

Não havia mais dúvida possível. Donald Weiser e Fred Mendel haviam mentido a Motta sobre a Sra. Germer e à Sra. Germer sobre Motta durante anos; e haviam permitido que a mulher, uma mulher judia, uma refugiada do nazismo, morresse de inanição numa terra de fartura tão horrivelmente quanto ela poderia ter morrido em Dachau ou Auschwitz. E o que era pior do ponto de vista de Motta, eles haviam feito dele seu cúmplice inconsciente neste crime contra a humanidade e contra sua própria Irmã na Ordem.

Embora, como já dissemos, não possamos entrar a fundo na vida pessoal e nos problemas pessoais de Motta neste relato, algo deve ser dito sobre eles e os leitores hão de compreender melhor como e por que serviços de "inteligência" tentam manipular movimentos religiosos e fraternidades secretas. Motta era, afinal de contas, um membro de uma Ordem sigilosa, a O.T.O.; e suas desventuras decorreram do fato de que ele era um membro sincero e genuíno da O.T.O., não um falso membro como Kenneth Grant ou Grady Louis McMurtry.

Antes, porém, devemos fazer um parêntese para explicar o termo "ocultismo". Uma definição (American Heritage Dictionary, 1969 e.v.) diz o seguinte: "1. O estudo do sobrenatural. 2. Uma crença em poderes ocultos e a possibilidade de colocar estes sob controle humano."

Segundo esta posição, totalmente moderna, a teologia (particularmente a cristista) cairia no nicho da primeira definição, e a religião em geral na segunda. O termo "ocultismo" foi popularizado no fim do século dezoito e início do século dezenove para cobrir essas filosofias, teorias e corpos de doutrina cujos autores ou seguidores haviam tentado manter secretas, e era usado principalmente com referência às fraternidades secretas da Europa durante a Idade Média. De acordo com esta definição legítima, "ocultismo" não era o estudo do "sobrenatural" — coisa que todo verdadeiro ocultista sempre afirmou não existir — mas um conjunto de filosofias, doutrinas e métodos de investigação científica que tinham que permanecer ocultos para que seus adeptos pudessem evitar perseguição, tortura e genocídio.

As assim-chamadas fraternidades "ocultas" da Idade Média e da Renascença sempre tem sido chamadas de "satânicas" pela Igreja Católica Romana e suas derivadas que aceitam o Credo de Nicéia; e têm sido assim chamadas porque elas sempre têm sido contra a Igreja Católica Romana e o Credo de Nicéia. "Morte à superstição e à tirania" tem sido o invariável grito de guerra dessas fraternidades; e por tirania e superstição elas têm sempre querido dizer o Romanismo, e tudo que este representa.

A "Igreja" Romana odiava e temia essas associações "ocultas"; em vista da sua ânsia doentia de poder, ela tinha bons motivos para temê-las, uma vez que, apesar do poder material bruto e maligno do câncer romano elas pouco a pouco o trouxeram ao descrédito entre os seres humanos mais inteligentes e mais desenvolvidos.

Sempre foi o método da Igreja de Roma infiltrar as ordens "ocultas" por quaisquer meios possíveis, inclusive através do sacrifício deliberado de seus membros laicos e até mesmo dos seus clérigos. Uma vez a infiltração fosse conseguida, rituais iniciáticos, palavras de passes e "toques" eram copiados e falsas lojas eram abertas, com autoridade forjada, e dirigidas por clérigos ou leigos católicos romanos. Com o poder financeiro do Vaticano atrás deles, e com a proteção dos governos que o Vaticano pudesse influenciar, tais "lojas" naturalmente prosperavam enquanto lojas legítimas encontravam a maior dificuldade para se estabelecerem ou se manterem. Eventualmente, aquela particular organização "oculta" era totalmente neutralizada pela Igreja Romana. Este tem sido o caso com a maçonaria do velho aeon em todos os países onde a Igreja Romana predomina. O inteiro complexo latino-americano de maçonaria asariana foi assim infiltrado, e agora é totalmente sem valor.

Onde quer que a Igreja Romana experimentou dificuldade nesta infiltração foi porque os rituais da organização maçônica diferiam de tal forma da insanidade de Nicéia que espiões católicos romanos tinham dificuldade em passar por eles. Em tais casos, os rituais, uma vez copiados, eram abertamente impressos. Isto os tornava inúteis para selecionar candidatos, e as falsas lojas abertas pela Igreja Romana prosperaram ao mesmo tempo que as verdadeiras lojas perdiam toda eficiência: como pode você testar um candidato ou uma candidata quando o inteiro processo do exame está abertamente publicado, e ele ou ela já sabe o que dizer ou o que fazer a cada estágio da cerimônia de iniciação?... Como já dissemos, isto é o equivalente de tentar examinar um estudante ao qual as perguntas e respostas do exame foram dadas de antemão. Quem pode dar um grau justo a uma tal pessoa? Como podem os indignos serem reprovados, e os dignos passarem, num tal exame?

Esta foi a técnica que a Igreja Romana usou para destruir o poder do Rito Escocês Antigo e Aceito, do Rito de Maçonaria Egípcia de Cagliostro, do Rito de Memphis e Misraim, e muitos outros ritos que ela não pôde infiltrar com eficiência enquanto seus rituais foram conservados "ocultos".

Uma variação interessante da vigarice romana foi perpetrada com a assim-chamada Maçonaria de "Orange". Este rito foi estabelecido para perpetuar a mensagem e o trabalho de um dos poucos crististas respeitáveis que já existiram: Guilherme o Silencioso, Príncipe de Orange-Nassau, protestante e inimigo fidagal do Romanismo. Este rito foi infiltrado pela assim-chamada família "real" britânica, alegando a longínqua conexão de sangue entre a Casa de Hanover e a linha de Orange-Nassau, e existe agora apenas para defender a política da alta classe-média britânica e a política da Igreja Anglicana. Como essa "Igreja" está rapidamente se tornando um joguete do Vaticano, a intenção original da Maçonaria de Orange, que era de defender o Protestantismo contra o Romanismo a qualquer custo, é agora apenas uma memória, e a Maçonaria "de Orange" é uma farsa.

(Robert Heinlein, o conhecido escritor americano de ficção científica, que em matéria de política e sociologia é ainda mais infantil do que Isaac Asimov, certa vez escreveu um romance, "Double Star", que se desenrola num futuro em que a Casa de Orange se torna monarca do mundo inteiro; mas no romance ele colocou um membro da presente família "real" holandesa no trono, em vez de um membro da família "britânica" dos Hanover... Isto demonstra quanto ele sabe do que está acontecendo debaixo do seu próprio nariz. Isaac Asimov recentemente declarou publicamente que ele prefere ter um patife sentado em Washington, bem longe dele, do que atuando em sua cidade. Esta idiótica asserção é típica da lógica social asimoviana. O que os olhos não vêem, o bolso não sente. Se o patife estivesse por perto, Asimov talvez se sentisse obrigado a ser desagradável para com ele; e Asimov gosta de ser gentil com todo mundo a qualquer custo. Ele é bem capaz de ter votado em Ronald Reagan em 1984 e.v.)

Deveria ser desnecessário dizer que governos corruptos sempre cooperam com o Vaticano na infiltração e na destruição de fraternidades "ocultas", uma vez que o Vaticano está invariavelmente aliado com governos corruptos. Testemunhe a Itália, a Espanha, a França, a Irlanda, a Alemanha nazista, a Polônia, a Áustria, o Luxemburgo, o Mônaco, a Coréia do Sul, o Vietnam do Sul, Formosa, as Filipinas, a Indonésia, a maior parte da África, e o inteiro continente latino-americano.

Com o advento de "Israel" o Vaticano adquiriu um aliado poderoso, embora indócil; pois uma vez que a mística do Sionismo está tão centrada em Jerusalém quanto a mentira católica romana, a manipulação de sentimento "religioso" cristista é tão útil a Tel Aviv quanto ao Vaticano; e Tel Aviv esconde um ás na manga. O jovem agente sionista que disse a Motta, com um sorriso malicioso, "Nós ainda esperamos convencer todo mundo de que ‘Jesus’ era um bom rabino" sabia perfeitamente que nunca existiu nenhum "Jesus"; mas se o Vaticano pode ensinar uma mentira, por que Tel Aviv não lucraria com isto? Esta é a atitude sionista; podemos condenar-lhe a imoralidade, mas não podemos lhe negar a lógica. Como sempre em casos de conduta desonesta, parece uma atitude lucrativa — a curto prazo.

Este jovem agente sionista foi a pessoa que deixou Motta viver no quarto de empregada de seu apartamento por dois anos. Era uma maneira barata e simples de ficar de olho no imprevisível Telemita. Mais sobre ele adiante.

Quando o Primeiro de Abril de 1964 e.v. foi encetado e o pseudo-democrático governo reacionário ocupou o poder, cem mil brasileiros foram sumariamente executados. Pelo menos doze mil foram transportados de helicópteros a duzentos quilômetros da costa brasileira e despejados no mar de pés e mãos atados de trezentos metros de altitude. "Observadores" da C.I.A. americana freqüentemente acompanharam essas interessantes viagens turísticas; agentes da C.I.A. treinaram os brasileiros que executaram esses "purgos".

A hierarquia vaticana no Brasil provavelmente adoraria ter feito de Motta um desses secretos recordistas de mergulho; mas foi impedida de arranjar o banho por uma combinação peculiar de circunstâncias.

De que forma Motta tomou conhecimento destes fatos se tornará evidente adiante neste relato.

Em primeiro lugar, a "revolução", embora supervisionada por generais e coronéis, foi executada por capitães e majores. Motta havia sido aluno do Colégio Militar do Rio de Janeiro; ele fora orador oficial no colégio e popular entre os colegas. O único motivo por que ele não seguiu carreira foi que a única arma do exército que o interessava era a Aeronáutica; como ele era míope, não lhe seria permitido voar. Ele não estava interessado em trabalho de escritório militar.

Por causa do seu passado, Motta era bem conhecido entre os oficiais jovens oriundos do Colégio Militar. Todos sabiam que ele sempre falara contra o comunismo, e até mesmo contra o marxismo, desde a adolescência.

Sua carta ao Dr. Gastão fora imediatamente dada à hierarquia vaticana, que por sua vez a dera imediatamente aos generais; mas para amargo desapontamento dos cardeais a facção militar da Junta decidira que uma voz tão abertamente hostil ao comunismo seria mais útil aos interesses dos cartéis que os subornavam, viva, do que afogada no oceano. Os generais, de fato, tiveram a estupidez de pensar que, uma vez que Motta era contra o comunismo, Motta seria a favor deles quando eles assumissem o poder. O Vaticano nunca cometeu este engano com Iniciados.

Quando a Junta assumiu, depressa se tornou claro que Motta não os amava: ele mandou queimar todas as cópias restantes do seu livro "Chamando os Filhos do Sol"; ele sabia o que viria, e não queria seu nome associado ao regime. Os generais acharam que ele era maluco, mas o pouparam: ele podia não ser por eles, mas pelo menos era contra o comunismo.

Talvez, também, o óbvio antagonismo de Motta contra a hierarquia católica romana divertisse o Estado Maior do Exército; como todos os membros de credos corruptos, católicos romanos têm um desprezo secreto por seus padres.

Porém, tomou-se o cuidado de mantê-lo sob estrita observação, e de impedir que ele se estabelecesse em qualquer dos meios de comunicação de massa. Isto não foi difícil de fazer, pois ele não aceitava a censura, e era impossível trabalhar honradamente com a censura.

Muitos exemplos do que aconteceu a Motta durante esses anos poderiam ser dados; mas um talvez baste, e talvez enfeixe alguns dos fios da rede de corrupção e mentiras. Ele conseguira emprego com um judeu, produtor de documentários, na posição de roteirista...

Deve ser explicado que Motta começara a escrever profissionalmente quando ainda era um estudante nos Estados Unidos da América. Ao regressar ao Brasil ele já havia vendido tele-peças para as televisões canadense e inglesa. Ele não tentara escrever para a televisão norte-americana porque os tabus eram quase tantos lá nos anos cinqüenta como se tornaram no Brasil nos anos sessenta.

Por essa época ele já havia saído do quarto de empregada no apartamento de propriedade do seu conhecido treinado nos kibbutzim (um jovem engenheiro trabalhando para uma grande firma de capital — naturalmente — sionista) e se mudara para uma modesta casa de pensão. Ele não via seu "amigo" judeu fazia alguns meses.

De surpresa o outro apareceu no escritório do patrão de Motta. Ao ver os dois conversando, Motta naturalmente se aproximou e estendeu a mão. Seu conhecido tomou-a com relutância ostensiva, e depois deliberadamente limpou a palma na calça enquanto patrão olhava. Motta ficou totalmente confuso; ele não podia compreender esta reação numa pessoa que sempre o tratara bem. Profundamente embaraçado, ele se afastou dos dois.

No dia seguinte o patrão foi fazer uma viagem de negócios e deixou um projeto muito difícil para Motta e seus outros dois subordinados. Como ele era novato na posição e queria dar boa impressão, Motta trabalhou horas extras no projeto. Dois dias após a viagem do patrão ele deixou de almoçar para adiantar o trabalho. Entrando no escritório onde os roteiros estavam ele casualmente deu uma olhadela nas notas que seus colegas haviam deixado sobre a mesa. Ele ficou completamente apatetado.

Mais tarde Motta se convenceu de que seus colegas haviam deixado suas notas sobre a mesa de propósito, para avisá-lo. Eles provavelmente haviam feito isto desde o início; mas sua discrição inata o impedira de olhar antes.

Na inconfundível caligrafia do patrão estava escrita uma série de instruções para os outros dois: o "projeto" era fictício. Eles deveriam manter Motta ocupado, e dificultar as coisas para ele o mais possível. Não importava qual a contribuição que ele fizesse: quando o patrão regressasse, o trabalho de Motta seria rejeitado e ele seria despedido.

O que o conhecido de Motta fizera tinha sido muito simples. O patrão, lembramos aos leitores, era israelita. O rapaz tinha vindo vê-lo, identificara-se como agente israelense, dissera ao patrão que Motta era um nazista, pessoa marcada pelo Vaticano e pelo governo militar, e vigiado.O patrão, que recebia a maior parte dos seus contratos das classes dirigentes — seus documentários eram todos matéria paga quer por grandes firmas privadas quer pelo governo "federal" — decidira se desfazer do canalha da maneira mais vingativa possível.

Quando o patrão regressou, Motta deu-lhe a entender que estava cônscio do arranjo, e foi prontamente despedido.

O nome do patrão era Isaac Rosemberg. O nome do conhecido de Motta treinado em "Israel" não será revelado aqui.

Como dissemos, este é somente um exemplo, dado apenas porque envolve o serviço de inteligência israelense. Muitos mais poderiam ser dados, invariavelmente envolvendo o Vaticano. Deve ser também compreendido que o que aconteceu com Motta nada é comparado com o que aconteceu a centenas de milhares de outras pessoas, todas elas brasileiros decentes e patriotas, quer fossem marxistas ou não.

Os anos seguintes foram muito difíceis para Motta. Como ele escreveu anos mais tarde a um discípulo, "Eu fui enterrado vivo, e nunca ressuscitei; em vez disto, o que aconteceu é que pisaram com tal força no meu túmulo que eu saí dele do outro lado do mundo". Um breve relato de sua reaparição talvez seja sugestivo.

Por volta de 1965 e.v. Motta abandonara qualquer esperança de trabalhar como escritor, ou diretor, ou produtor na televisão brasileira: os tabus eram em demasia. Seus roteiros originais eram constantemente censurados ou ridicularizados. Ele procurou trabalho lecionando inglês em cursos livres e, aos 34 anos de idade, começou a praticar judô para fortificar seu corpo e sua mente. Ele começava a duvidar da sua sanidade mental; ele constantemente suspeitava das pessoas que se aproximavam dele. Ele pressentia em si todos os sintomas clínicos da paranóia.

Naquela época ele conheceu uma linda moça vizinha sua que expressou um desejo de se tornar agente da polícia secreta. A moça era encantadora, romântica, inocente; ela se sonhava uma futura Mata Hari. Motta se interessou por ela.

(Apesar de sua reputação de homossexual, cuidadosamente espalhada tanto pela C.I.A. quanto pelos serviços "brasileiros" de informação, sempre foi muito difícil para Motta recusar qualquer coisa a uma mulher, especialmente se ela for bonita.)

Um dos colegas de Motta na academia de judô que ele freqüentava, um poderoso faixa-preta segundo "dan", era agente de um dos ramos da polícia federal. Motta falou com ele sobre a moça durante o treino.

"Olhe aqui", o agente lhe disse, "essa moça compreende que uma agente mulher freqüentemente tem que agir como uma prostituta?"

"Eu creio que ela provavelmente sabe disto", Motta disse. "De qualquer forma, eu não sou responsável pela moça. Talvez você possa conseguir uma entrevista para ela, e depois vocês lá podem decidir se aceitam ela ou não."

O colega de Motta, que freqüentemente substituía o mestre na academia, pediu o nome e o endereço da moça. Motta deu-lhe ambos e prontamente se esqueceu do assunto.

A vez seguinte que ele veio à aula de judô e o agente federal lá estava, ele notou uma mudança marcante na atitude do homem para com ele. O agente evitava olhar para ele ou falar com ele ou mesmo treinar com ele. Motta pensou que isto era um sinal de que a moça havia sido considerada indesejável, e que a decisão refletira sobre ele como padrinho dela; mas em dado momento, durante o treino, o agente, que estava supersionando o dojô, gritou para o parceiro de Motta: "Cuidado com os truques desse cara! Ele pertence à A\ A\ !"

Ora, deve ser entendido que ninguém na academia estava a par dos interesses "ocultos" de Motta; ele nunca os mencionara. Ele ficou absolutamente surpreso, mas mesmo assim olhou o agente com um apelo no rosto. O agente imediatamente emendou: "Alcoólicos Anônimos!"

O duplo sentido místico no trocadilho penetrou, e Motta caiu na gargalhada. Isto aparentemente apaziguou o agente, que mais tarde na sessão veio treinar com ele. Motta lhe disse, enquanto os dois evoluíam: "Eu pensei que você já sabia a meu respeito, eu treino aqui há tanto tempo." O agente sorriu e não respondeu.

A moça que Motta recomendara nunca mais falou com Motta. Uma expressão de medo aparecia em seu rosto quando quer que passava por Motta na rua.

Claro, ela tinha sido exaustivamente interrogada sobre sua conexão com o infame e pervertido satanista. A primeira reação do serviço secreto, infestado e controlado pelo Vaticano, fora que Motta estava tentando introduzir uma informante na estrutura.

Quando Motta voltou ao seu quarto de pensão aquela noite ele finalmente começou a pensar. Ele se lembrou das coisas esquisitas que haviam acontecido com ele desde que ele começara a imprimir livros telêmicos no Brasil, e até antes disto. Ele se lembrou de sua estranha prisão nos EE.UU. Ele se lembrou das absurdas suspeitas de gente com quem ele entrava em contato na televisão, no jornalismo, em livrarias. Ele se lembrou da maneira como o seu trabalho era censurado enquanto outros roteiristas pareciam poder fazer o que lhes aprouvesse. Ele se lembrou das estranhas cartas que recebera de "candidatos" após a publicação de "Chamando os Filhos do Sol". Ele se lembrou das cartas mais estranhas ainda que recebera depois de mandar destruir a edição. Ele se lembrou das brutais, aparentemente irracionais armadilhas que lhe haviam sido armadas por gente que mal o conhecia, como Isaac Rozemberg e diversos produtores de televisão. Ele se lembrou de passar semanas sem comer, e de caminhar trinta quilômetros por dia para procurar emprego — um homem formado no estrangeiro! Ele se lembrou de levar dois, três meses para ser pago por um roteiro enquanto outros que, mesmo em sua humilhação, ele percebia como menos talentosos e qualificados do que ele ganhavam três vezes mais e eram pagos no dia seguinte.

Ele vira o filme que Orson Welles fizera de "O Processo" de Kafka...

(Muito melhor que o livro, principalmente o final. Mas Welles era um gênio que experimentou "O Processo" em sua própria carne.)

... Ele se lembrou de ficar impressionado com a irracionalidade aparente da perseguição em sua própria vida. Ele se lembrou de duvidar de sua sanidade mental, e de reconhecer o que ele diagnosticara como sintomas de paranóia em suas reações. Ele começara a suspeitar das pessoas, velhos e novos conhecidos; ele se tornara temeroso e incerto; ele começara a crer que era odiado e perseguido sem motivo; pior, ele começara a acreditar que tudo isso era imaginação sua: que ele fracassara completamente nas suas ordálias iniciativas, e estava ficando louco.

Ele não estivera ficando louco. A perseguição não era imaginária. O ódio não era imaginário. Ele era conhecido. Ele estava fichado. Ele era considerado um inimigo do Estado.

E ele era um inimigo do Estado. Aquele "Estado" de generais vendidos e de espiões do Vaticano. Aquele "Estado" de traidores da pátria.

Eles tinham percebido a atitude dele para com eles melhor do que ele próprio.

Uma simples questão de consciência culpada; mas Motta ainda levaria algum tempo para perceber isto.

Não admirava que ele se sentisse sufocado e encurralado! Ele não tinha amigos. Ele discordava de tudo que os marxistas representavam intelectualmente, embora lhes respeitasse a honestidade moral. E ele desprezava a corrupção moral e cívica dos vencedores vendidos aos cartéis, o brutal egoísmo e ganância velados pelos protestos deles de "liberdade" e "democracia". Ele sabia como eles estavam deliberadamente e conscientemente destruindo na prática tudo aquilo que fingiam professar em teoria.

Eu estou andando num asilo; todos os homens e mulheres em volta minha estão loucos.

Ó loucura! loucura! loucura! tu és desejável.

Mas eu Te amo, Ó Deus!

Estes homens e mulheres deliram e uivam; eles espumejam tolice.

Eu começo a sentir medo. Eu não tenho com quem comparar notas; eu estou só. Só. Só.

Os versos de LIber VII vieram-lhe claros à mente. E então:

Eu sou só: não existe Deus onde Eu sou.

Pensa, Ó Deus, como sou feliz em Teu amor.

As peças do quebra cabeças caíram no lugar. Naquela época, Motta ainda não ouvira falar da "piada" favorita da C.I.A.: "O fato de que você é paranóico não quer dizer que não estamos te seguindo". Ele ouviu a "piada" muitos anos mais tarde; se a tivesse ouvido então, ter-lhe-ia sido de tanto auxílio! Ele nunca riu da "piada"; ele nunca a achou engraçada; somente o torturador gosta da tortura. Não, Motta jamais achou a espirituosidade da C.I.A. risível; mas ele a compreende muito bem.

Uma análise da validade da C.I.A. e de serviços de "inteligência" em geral será encontrada na conclusão desta história.

"A parábola de Jó é falsa", Motta pensou, "falsa como tudo mais na ‘Bíblia’. Os sofrimentos de gente honesta não são causados por qualquer vontade "divina": são causados pelo egoísmo estúpido de homens baixos."

E o egoísmo estúpido de homens baixos não está mais claro em parte alguma que nos sofismas da ‘Bíblia’ — ambos "Testamentos". O "Novo" é, afinal de contas, apenas uma ramificação do "Velho". Não admira que seu conhecido treinado nos kibbutzim tivesse dito a Motta: "Nós ainda esperamos convencer todo mundo de que ‘Jesus’ era um bom rabino". Homens baixos sempre constroem a motivação do seu "Deus" sobre a "base" de seus recalques e complexos.

Naquela noite ele reafirmou seus votos ao Senhor do Aeon, às Supernas, ao seu Anjo, à Besta 666 e a Télema.

No dia seguinte ele acordou em paz consigo mesmo, embora em guerra com o mundo.

Duas semanas mais tarde sua academia de judô viajou para uma cidadezinha próxima onde um dos alunos do mestre tinha a sua própria academia. Eles iam participar de um torneio de demonstração. Durante a demonstração Motta viu, na audiência, um ex-colega do Colégio Militar, agora um capitão do Exército, que ele não via fazia dez anos, mas do qual tivera notícias. O capitão havia sido um dos mais queridos colegas de Motta no colégio. Motta chamou-o alegremente do outro lado do salão cheio.

O capitão viu Motta, e se apressou em direção à saída sem responder à sua saudação.

Duas semanas antes, Motta haveria simplesmente murchado para dentro de si mesmo, esmagado por mais esta prova de sua falta de valor. Agora, ele foi ao encalce do capitão, e encurralou-o na rua. O que se seguiu foi uma das mais estranhas e mais reveladoras palestras que Motta já teve na vida.

O capitão disse a Motta que evitara falar com ele em público por dois motivos: primeiro, sabia-se que Motta era um inimigo em potencial do regime e por isto ser visto com Motta poderia comprometê-lo; segundo, ele era o oficial encarregado de abrir e ler a correspondência de Motta.

Motta replicou que ele havia estado cônscio de que lhe vasculhavam a correspondência fazia algum tempo, mas não disse como.

(Outro capitão, outro ex-colega que fora amigo de ambos, havia dito a Motta logo após o golpe que este colega estava profundamente perturbado porque lhe havia sido ordenado abrir e ler a correspondência de outras pessoas; mas não dissera a Motta que sua correspondência era uma das que o ex-colega lia... Na ocasião, Motta comentara: "Bom, se isso tem que ser feito, diga a ele que é melhor que seja feito por alguém que se envergonha de fazê-lo").

O capitão disse a Motta que este havia estado sob vigilância desde o seu regresso dos EE.UU.; que a C.I.A. havia dado ao serviço secreto do Exército brasileiro um fichário sobre Motta que afirmava que Motta era um homossexual, um traficante de drogas, um aliciador de menores, um satanista e um agente comunista.

Motta perguntou, "Essa ‘informação’ por acaso foi fornecida por um cara chamado Oskar Schlag?"

"Oh, você conhece Schlag?" o capitão retorquiu, surpreendido. "Não, o fichário veio de modo usual. Schlag às vezes faz um servicinho para a C.I.A., mas ele não é da C.I.A. Ele trabalha para a seção de guerra psicológica de Shin Beth. A gente não confia muito neles."

Motta perguntou, "O que é ‘Shin Beth’?"

Seu amigo (ou antes, ex-amigo) explicou que Shin Beth eram as iniciais do nome em hebreu do Serviço de Inteligência Israelense.

Por motivos políticos, o nome foi desde então mudado oficialmente, assim como um Diretor católico romano da C.I.A. é substituído por outro diretor católico romano quando a imprensa americana descobre alguma atrocidade da C.I.A. e a comenta publicamente. No presente, o nome é Mossad.

Naquela época, Motta ainda não havia percebido que Schlag trabalhava para os israelenses. De fato, naquela época Motta pouca atenção prestava aos israelenses: ele ainda confundia israelenses com israelitas, e ele tem sempre sentido grande afinidade por judeus. Foi quando o capitão lhe disse isto que ele compreendeu, pela primeira vez, o que seu conhecido treinado nos kibbytzim estivera fazendo no escritório de Isaac Rozemberg. Mas ele ainda não podia entender o que os israelenses tinham contra ele.

Motta perguntou ao capitão se este havia roubado sua patente da O.T.O. O capitão negou ter feito isto. Motta perguntou se ele alguma vez a tinha visto. O capitão replicou que, mesmo que tivesse visto tal documento, não poderia dizer isto a Motta: tinha um dever para com os seus superiores.

Motta riu amargamente. "Eu me lembro", ele disse, "do último ano no colégio, quando vocês resolveram seguir carreira e ingressar na Academia. Eu fui a todos vocês, um por um, e perguntei por que vocês iam entrar para o Exército. Lembra-se do que você me disse? Você me disse que ia para o Exército porque era uma carreira segura: bom salário, boa pensão, e muito pouca chance de guerra. Todos os outros me deram a mesma resposta. Nenhum de vocês me disse que estava entrando para o Exército porque amava o Brasil e queria servi-lo. Eu tenho certeza de que você está ganhando seu salário, mas você acha realmente que o que você anda fazendo serve ao nosso país?"

"Nós estamos lutando contra os comunistas", o capitão protestou, mas sem muita convicção.

"E abrindo as pernas para todo mundo mais", Motta replicou. "A ‘política’ de vocês vem de Washington; a ‘moralidade’ de vocês vem do Vaticano; o dinheiro de vocês vem da Suíça, e os bichos-papões de vocês vêm da China e de Moscou. Não há absolutamente nada brasileiro em vocês. Eu me lembro que justo antes do Primeiro de Abril um dos semanários marxistas que vocês fecharam publicou um cabeçalho: "Chega de intermediários: Lincoln Gordon para presidente!" Eles realmente sabiam o que estava acontecendo, não é?"

Lincoln Gordon era então o embaixador norte-americano. Quando documentos sobre a atividade da C.I.A. no Brasil foram publicados durante a administração Carter, ficou-se sabendo que realmente Lincoln Gordon havia trabalhado com a C.I.A. para ajudar a organizar e incitar a "revolução democrática" no Brasil. O semanário fechado à força chamava-se "Novos Rumos".

"Mas dá pra ver que você não gosta realmente do que está fazendo", Motta concluiu, olhando a cara ruborizada do seu ex-amigo.

Eles se despediram e se separaram, Motta resolvido a nunca mais procurar o outro. Seis meses depois, ele ouviu dizer que seu ex-amigo morrera de um ataque cardíaco.

Na ocasião, Motta pensou que o ataque cardíaco resultara de grande tensão emocional; ele podia ver que o capitão realmente detestava a atividade que lhe havia sido delegada. Mas agora que ele sabe que a C.I.A. tem técnicas para induzir "ataques do coração" aparentemente naturais, ele tem suas dúvidas. Muita gente boa tem morrido de "ataques do coração" no Brasil — e em outros países — desde 1964 e.v.

O nome desse capitão era Wilmard Freitosa Caldas. O nome do colega que primeiro disse a Motta que o Caldas havia sido encarregado de vasculhar a correspondência alheia não será revelado agora.

Apesar de sua recente percepção do que se passava com ele, Motta ainda tinha muito que aprender sobre a complexidade e alcance da atividade de serviços de "inteligência" e suas redes de puxa-sacos, informantes, subornados e inocentes úteis. Era um enorme alívio não duvidar mais de sua sanidade mental; mas ele ainda não percebera como a insanidade de outros os tornava malignos.

Enquanto trabalhava como professor de inglês e praticava seu judô ele não havia negligenciado seus deveres iniciáticos; ele continuara suas práticas ocultas e continuara orientando os poucos discípulos que restaram depois que ele mandara destruir a edição de "Chamando os Filhos do Sol". Ele sabia agora que a maioria desses "discípulos", talvez todos, eram espiões da Junta ou do Vaticano. Mas isto não era relevante. A A\ A\ não discrimina entre candidatos a não ser de acordo com suas próprias regras. O Instrutor deve se negar completamente em serviço aos Aspirantes enquanto estes Aspirantes cumprirem o Juramento e se dedicarem à Tarefa. E, Motta ponderou, alguns desses possíveis espiões talvez fossem espiões porque eram legítimos patriotas.

Como o tempo comprovou, nenhum era patriota — pelo menos não no senso do patriotismo ecológico, o patriotismo que foi tão brilhantemente definido pelo grande Fernando Pessoa — e nenhum tinha capacidade para avançar na Ordem.

Ele estivera também anotando suas próprias percepções do significado dos versos de Liber AL. Isto ele já vinha fazendo havia dez anos, constantemente revisando suas anotações à luz da experiência. Ele começou a perceber como os Comentários de Crowley, dos quais ele possuía uma cópia que lhe fora enviada pelo Sr. Germer, se entreteciam com os dele. Ele começou também a perceber que alguns dos Comentários de Crowley estavam incorretos, ou pelo menos incompletos; por motivos quer de modéstia pessoal, quer pelas naturais limitações de um pioneiro, em certas direções Crowley não havia ido muito a fundo em seus Comentários. No entanto, em outros dos escritos de Crowley, Motta encontrou a exata reflexão de suas próprias percepções intelectuais da Lei.

Ele decidiu que publicação dos Comentários de Crowley com os seus poderia ser útil a Télema. Após dez anos de revisão constante, ele achou que havia podado a maior parte das tolices nas suas anotações, e a maior parte das redundâncias nas anotações de Crowley.

Era uma labuta perigosa, repleta de armadilhas mortais; ele sentia os Vigilantes debruçados por sobre os seus ombros enquanto ele escrevia, analisando cada palavra, prontos a golpear ao menor sinal de vaidade ou falso orgulho.

Ele escrevera seus Comentários em Português...

Motta passara seus "anos no deserto" traduzindo material telêmico para o português. Por esta época ele já tinha traduzido todas as instruções da A\ A\ necessárias a Probacionistas e Neófitos. Suas anotações a AL haviam sido assentadas enquanto, pouco a pouco, ele traduzia os Comentários de Crowley para a sua língua nativa. Liber AL fora sua primeira tradução; ele a revisara repetidamente durante uma década, tentando melhorá-la.

... Agora ele os verteu para o inglês, e no processo percebeu que tinha muito a cortar ou revisar. Países da língua inglesa, em via de regra, estavam moralmente e intelectualmente avançados em relação à América Latina. O peso da dominação católica romana nunca o impressionara tanto quanto quando ele percebeu como a teologia romano-alexandrina havia impedido a maturação emocional do Brasil.

Chegamos neste momento a um estágio neste relato em que pode ser útil concluir uma cronologia preparada para o processo contra Donald Weiser e Samuel Weiser, Inc. em Maine. Para assim fazer, deveremos retroceder dois ou três anos e introduzir informação que Motta na época não possuía, e que se tornou disponível somente após uma década de investigação persistente e extremamente difícil. Muitos dos dados foram fornecidos — não de muito boa vontade, por motivos que se tornarão mais e mais claros à medida que prossigamos — por Gerald Yorke quer ao Sr. J. C. Ellis ou ao Sr. Martin P. Starr. Ambos eram discípulos de Motta e membros da O.T.O. na época, e ambos estavam trabalhando sob instruções de Motta. Comentos explicativos serão, como antes, inseridos entre parênteses retos.

5 de setembro de 1969 e.v.: Nessa data John Symonds escreveu a Gerald Yorke que, "por ele", Kenneth Grant era a Cabeça Externa da O.T.O. A carta foi escrita em resposta a uma carta de Yorke criticando a intenção de Symonds de publicar uma edição pirata de Autohagiografia de Crowley.

23 de outubro de 1969 e.v.: A edição pirata da Autohagiografia patrocinada por Symonds foi publicada por Jonathan Cape em Londres, como título "As Confissões de Aleister Crowley". Na Introdução e na contra-capa constava a asserção de que Kenneth Grant era a "Cabeça da O.T.O.".

Lembramos aos leitores que Grant havia sido expulso da O.T.O. pelo Sr. Germer quinze anos antes. Symonds e Grant haviam investigado cuidadosamente as asserções de Joseph Metzger e Grady MacMurtry e chegado à conclusão de que nada tinham a temer dos dois.

A publicação foi um imediato sucesso, em termos desse tipo de livro. Re-edição nos EE.UU. por Hill & Wang, foi negociada; depois, uma edição de bolso por Bantam Books. Foi esta última que Motta comprou no Brasil — ele não tinha dinheiro para comprar a edição encadernada. Lendo, ele reconheceu a relativa autenticidade do texto (ele havia lido a Autohagiografia em manuscrito), embora grosseiramente editado. Foi ali que ele pela primeira vez tomou conhecimento do fato de que alguém além de Metzger declarar ser a Cabeça Externa da O.T.O. Ele imediatamente pensou que a Sra. Germer nomeara Grant Cabeça Externa para despeitar o odiado "herdeiro espiritual" brasileiro.

6 de outubro de 1970 e.v.: Grady McMurtry assinou um contrato com Llewellyn Publications pelo Baralho do Taro de Crowley.

(O contrato cedia todos os direitos a Llewellyn contra quinhentos dólares e a divulgação do endereço de McMurtry como "legítimo representante da O.T.O.". Seis anos mais tarde, em 21 de maio de 1976 e.v., Carl Weschcke, o dono de Llewellyn, escreveria a Donald Weiser, a propósito da nova edição pirata do Tarô de Crowley projetada por ambos: "Eu não pagaria um tostão a McMurtry". Até agora, Weschcke e Weiser lucraram mais de duzentos mil dólares apenas na venda do baralho do Tarô que McMurtry lhes "cedeu" por quinhentos. Enquanto isso, a Sra. Germer morreu de fome na Califórnia.)

28 de outubro de 1970 e.v.: Nessa data Motta, que obtivera e lera uma cópia da edição Bantam de "As Confissões de Aleister Crowley", escreveu a Grant pela primeira vez. Correspondência foi trocada, durante a qual Grant descobriu que Motta tinha uma legítima patente da O.T.O., no entanto estava pedindo a ele permissão de trabalhar pela O.T.O. e solicitando Rituais para tal fim!

A correspondência de Motta com Grant será eventualmente publicada em sua inteiridade. Ela é instrutiva. Grant, naturalmente, não disse a Motta que o Sr. Germer o expulsara da O.T.O.: ele apenas mencionou casualmente que "eles haviam brigado bastante". Motta havia brigado bastante com o Sr. Germer também, essa informação apenas o fez sorrir. O que não o fez sorrir, entretanto, foi perceber, do contexto da correspondência, que Grant era (como Motta mais tarde disse a James Wasserman) uma pessoa jovem e inexperiente, e parecia não possuir certas percepções iniciáticas absolutamente necessárias à Cabeça Externa da O.T.O. Também, Grant obviamente não era mais que um Probacionista na A\ A\ , se tanto: Motta continuamente lhe dava todo tipo de senha e as respostas ou eram as respostas erradas ou Grant não percebia e não respondia.

Na realidade, Grant era vários anos mais velho do que Motta, como James Wasserman mais tarde disse ao brasileiro. O que Motta tomara por inexperiência da juventude era apenas velhice desonesta e destreinada.

Deve ser compreendido que Motta, convencido de que a Sra. Germer havia nomeado Grant como Cabeça Externa para despeitar o detestado brasileiro, estava tentando trabalhar sob o outro homem com boa vontade: seu fito era ajudar a colocar a O.T.O de pé, não buscar honrarias ou autoridade para si mesmo. Mas com a maior inocência ele subitamente soltou uma bomba: ele pediu a Grant permissão para publicar Os Comentários de AL.

Sua Carta de pedido ficou sem resposta durante vários meses. Finalmente Motta, que já então era suficientemente paranóico para crer em correspondência aberta ou roubada por serviços de segurança em qualquer país (mas não, como vemos, suficientemente paranóico para acreditar que todo mundo lhe estava mentindo), repetiu seu pedido numa carta registrada com aviso de recebimento.

A 16 de julho de 1971 e.v. Grant respondeu por fim. Ele se desculpou pela demora em responder, pretextando exigências do seu Cargo como a causa, e pediu detalhes da publicação dos Comentários planejada por Motta.

No entrementes, os dois ladrões haviam estado muito ocupados. Symonds, informado por Grant da existência de Motta e da asserção de Motta de que ele, Motta, possuía uma legítima patente da O.T.O. outorgada pelo Sr. Germer, ficara extremamente alarmado. Ele solicitou uma nova certidão do testamento de Crowley, alegando ser o único testamenteiro sobrevivente. Como a documentação posteriormente obtida comprovou, uma certidão legítima havia sido requerida pelos testamenteiros imediatamente após a morte de Crowley; e Symonds, cuja função como testamenteiro, de acordo com o texto do testamento, fora exclusivamente de reunir todos os materiais literários da autoria de Crowley e enviá-los aos Germers, completara uma distribuição muito mal feita em 1951 e.v., em cuja data qualquer conexão legítima entre ele e o espólio de Crowley cessara por completo. A segunda, fraudulenta, certidão, foi concedida a 1 de março de 1971 e.v. Foi somente após Symonds ter uma cópia disto em suas mãos que ele permitiu a Grant que respondesse à carta de Motta. Entrementes, ambos os homens buscaram secretamente e com urgência conseguir um contrato de publicação dos Comentários de Crowley para si próprios.

Motta forneceu os detalhes requisitados. Sua carta ficou sem resposta durante quase um mês. A 21 de agosto de 1971 e.v. Grant finalmente respondeu-a, dizendo que ele não podia dar a Motta permissão para publicar: o dono dos direitos autorais de Crowley era um Sr. John Symonds, e Motta deveria dirigir-se ao mesmo.

Motta, com toda a inocência, assim fez a 15 de setembro de 1971 e.v.

Deve ser repetido que Motta ainda estava tentando trabalhar pela O.T.O., a despeito de todos os agravos e toda a oposição. Ele achou esquisito que esse tal Symonds — que ele ainda não associara em sua mente ao autor da menos ruim das presentes biografias de Crowley, "A Grande Besta" — mantivesse controle dos direitos autorais se Grant era a Cabeça Externa da O.T.O.; mas nessa época Motta ainda não conhecia o texto do testamento de Crowley; Grant não lhe enviara uma cópia. Também, Motta sabia muito bem que há círculos dentro de círculos no verdadeiro trabalho maçônico, especialmente na O.T.O. Era até possível, ele pensou, que esse Symonds fosse a verdadeira Cabeça Externa, que permanecia oculta, e que Grant era meramente seu testa de ferro consciente (o que realmente ocorria, embora não da forma que Motta pensava: pelos termos do testamento de Crowley, Symonds, o ladrão, não tinha absolutamente qualquer controle dos direitos autorais da O.T.O.; para fingir o contrário, ele tinha que alegar estar em contato com a Cabeça Externa da Ordem, que é, pela Constituição, única curadora da propriedade da O.T.O. internacionalmente).

Para tornar as coisas mais complicadas ainda, a Cabeça Externa da O.T.O. deve, pela Constituição, se manter inteiramente anônima para os profanos: como é dito alhures, a identidade da pessoa ocupando este Cargo deve ser conhecida apenas pelos seus imediatos representantes; e por ninguém abaixo do VIIIº. Por isto, Motta esperava extrema dificuldade em estabelecer contato com a verdadeira Cabeça Externa nomeada pela Sra. Germer. Já então ele suspeitava que não podia ser Grant: o homem não era suficientemente evoluído. As cartas de Motta a Grant haviam insistido sobre o fato de que Motta possuía o IXº porque ele sabia que, como Membro do Círculo Supremo, ele tinha o direito de saber a identidade da Cabeça Externa. Talvez fosse esse misterioso Symonds, finalmente...

Como Motta anos mais tarde escreveria ao seu advogado:

Note por favor que eu estive entre os chifres de um triplo dilema todos estes anos. Primeiro, ou eu era o Sucessor e a Cabeça Externa escolhido da O.T.O., ou eu não era. Eu tinha que descobrir se eu era ou não era. Para fazer isto, eu tinha que lidar com outras pessoas que afirmavam serem a Cabeça Externa, ou afirmavam serem legítimos representantes da O.T.O., portanto da Cabeça Externa. Se eles não estavam mentindo, talvez eles tivessem tido ordens de não me deixar saber quem era a C.E.O. até se assegurarem de que eu era um verdadeiro membro do IXº O.T.O. Se eles estavam mentindo, eu tinha de evitar dizer ou fazer qualquer coisa que pudesse conferir a profanos conhecimento que deveria pertencer apenas a Iniciados, e que eu jurara sobre a minha honra velar e proteger; no entanto, que eu também estava jurado, pela minha honra, a conferir a qualquer ser humano de valor. (Isto é o que significa a frase ‘Não deixes de ter um herdeiro ou uma herdeira.’)

É de admirar que eu levei mais de dez anos para finalmente me assegurar de que eles estavam todos mentindo e de que eu sou a verdadeira Cabeça Externa?

Além do que, note que meu dilema pode não mais ser triplo, mas ainda é pontudo. Pois, a fim de defender a O.T.O. de ladrões e impostores, eu tive que fazer aquilo que a Cabeça Externa não deveria fazer: eu tive que comparecer perante profanos e declarar publicamente que sou a Cabeça Externa. Esta indignidade me foi imposta por gente como McMurtry, Grant e Weiser. Pelo menos o Metzger teve a decência de calar a boca quando percebeu que eu não aceitaria sua autoridade auto-assumida. E ele era o único que poderia razoavelmente ter suspeitado de mim, pois ele era o único que não me conhecia pessoalmente. (Grant não conta; ele foi expulso faz anos.)

É irônico considerar que, se a C.I.A. tivesse me ajudado em vez de cooperar com o Vaticano para me combater, os Estados Unidos talvez tivessem hoje uma reputação muito melhor, não só na América Latina como no resto do mundo.

Mas a C.I.A. nunca teria ajudado Motta porque, dominada como está por diretores católicos romanos e chefes de seção sionistas, ela raramente serve aos interesses dos EE.UU. Em vez disto, ela secretamente usa o dinheiro dos impostos do cidadão médio americano para sustentar dois dos mais ricos e mais indignos poderes estrangeiros do mundo.

A 5 de outubro de 1971 e.v. Symonds escreveu a Motta uma das mais grosseiras cartas que Motta já recebeu na vida — ele tem recebido muitas. Em resumo, a carta dizia que todos os direitos autorais de Crowley pertenciam a Symonds como "testamenteiro literário"; que se Motta duvidasse disto, Motta poderia requerer uma cópia da certidão de Somerset House...

Ele queria dizer a sua própria e fraudulenta certidão. Somerset House é o cartório central para testamentos da Inglaterra, como Motta agora sabe; na ocasião ele não entendeu nada da menção.

Motta, ao receber esta carta, ficou chocado com o que parecia a ele uma hostilidade totalmente gratuita...

Motta ainda não se tinha familiarizado com os sintomas de uma consciência culpada em homens baixos. Uma pessoa superior (como diria o Li Djing), ao se perceber em falta, pede desculpas e oferece compensação. Mentes rancorosas e mesquinhas, quando se chama sua atenção para seus malfeitos, sentem ódio por aqueles que elas prejudicaram: ora, suas vítimas ousaram causar desconforto aos seus egos! Daí o insistente preceito dos deuses-dos-escravos de virar a outra face: é muito repousante para os tiranos que os oprimidos cultivem essa "virtude".

A técnica de "resistência passiva" de Mohandas Gandhi foi uma aplicação inversa desse mesmo truque; e o assassinato de Ghandi se tornou inevitável quando ele decidiu representar o papel do "Deus Sacrificado". A fórmula não operou maravilhas na Índia; mas também, nunca operou maravilhas em parte alguma. Se Martin Luther King tivesse sido menos vaidoso, ele estaria vivo hoje, e o movimento negro teria se beneficiado de sua vida muito mais do que se beneficiou da sua morte. É a suprema armadilha que os Deuses-dos-Escravos armam aos homens dignos, essa idéia de que devem morrer pela "causa": é a mais sutil variação da atitude de "virar a outra face". Veja-se Al ii 21. Como disse Victor Hugo brilhantemente em seu romance "O Noventa e Três", é muito mais fácil morrer com honra do que viver com honra. Acrescentaremos que morrer tolamente é a morte mais fácil de todas.

... as finalmente pode perceber que o autor da carta era também o autor de "A Grande Besta". Ele escreveu de volta a Grant a 8 de outubro de 1971 e.v.:

... Estou incluindo com esta uma fotocópia de uma carta do seu amigo (você anda com gente muito estranha) o Sr. Symonds. Eu não tinha, por falar nisto, percebido até recentemente que este é o mesmo Symonds que escreveu "A Grande Besta" e publicou "A Magia de Aleister Crowley" (não era este o nome do livro?). Tivesse eu sabido, não teria necessitado perguntar a ele pelos seus "direitos" à obra literária de Crowley.

Motta se referia aqui não a direitos legais, mas a direitos espirituais: ele então cria que os direitos autorais de Crowley haviam entrado no domínio público por causa da desobediência da Sra. Germer à última vontade do marido, e ele estava buscando encontrar Iniciados do seu próprio nível com os quais pudesse trabalhar. Ele já sabia que Grant não era um desses, mas considerava Symonds ainda menos evoluído que Grant, como veremos do resto da carta:

... Peço informar o inseto de que estou disposto a deixar passar a ficção de que ele é o "herdeiro literário" de Crowley, em favor de um pouco de ordem neste Plano de Discos. Eu acho (e sem dúvida assim também acha 666) que é melhor se a primeira publicação de suas obras for feita por um não telemita. A casca deve ser forte, ou o filhote de águia não será forte...

Isto era uma referência direta a Liber Aleph, Cap. 75; é duvidoso se Grant percebeu a referência, ou compreendeu-lhe o sentido. Em todo caso, Motta estava errado.

...Também, tenho muito pouco tempo para lidar com assuntos de publicação telêmica no momento, como já lhe disse.

Porém, quanto aos Comentários, o caso é outro. É favor informar o Sr. Symonds de que minha edição sairá o ano que vem. Sem dúvida alguma se beneficiará da dele. Se ele der sequer um pio contestando meu "direito" de fazer isto, eu exporei a vigarice dele publicamente de uma vez por todas. Eu não dediquei a maior parte da minha vida a Télema para entrar em briguinhas com um Symonds.

Eu finalmente tive algum tempo para ler a edição dele (e sua) das "Confissões", e acho que a sua introdução é para seu grande crédito, enquanto a dele mostra o chacal tentando se pavonear na pele do leão. Eu não sei quem escreveu as anotações; se foi ele, os erros ocasionais eram de se esperar. Se foi você, você deveria ter mais juízo...

... A carta do Sr. Symonds foi muito esclarecedora (embora talvez não tencionadamente). Eu acho, Kenneth Grant, que você cometeu um grande erro quando se afastou de Frater SATURNUS somente porque o seu miserável egozinho foi magoado por Ele...

Lembramos aos leitores que Motta não sabia ainda que Grant havia sido expulso; Grant nunca lhe confessou isto, ele apenas disse que ele e o Sr. Germer haviam "brigado". Motta, com experiência de tais "brigas", inferiu o acima, erroneamente, claro.

Deveria talvez ser dito aqui que os Mestres são sempre reverenciados enquanto dizem aos discípulos coisas que estes consideram agradáveis; mas assim que você começa a criticar as limitações dos desgraçados numa tentativa de ajudá-los a se desvencilharem destas e a crescerem, você é um charlatão; talvez até, um "Irmão Negro"! O que deveria levar os leitores inteligentes a ponderarem as intenções dos "mahatmas", "gurujis" e "maharishis" que são universalmente reverenciados pelos seus "discípulos" durante suas existências inteiras.

... Indubitavelmente foi por este motivo que você nunca progrediu muito na A\ A\ .

Eu acho, por outro lado, que é para seu crédito que você "deu testemunho" nessa edição que vocês dois fizeram das "Confissões". Também, sua conduta para comigo, embora inocentemente pomposa às vezes, tem estado sempre dentro dos limites do que se deve esperar de um Telemita. Eu não estou interessado nas brigas mesquinhas entre você e o Rei Suíço, o qual seguramente tinha direito à Sucessão até o dia em que desobedeceu SATURNUS no ponto — mortífero! — de mudar o estilo das letras numa Publicação em Classe A. da A\ A\ .

Na realidade, embora Motta não soubesse disto na época, havia muitas outras razões pelas quais Metzger não poderia ser o Sucessor, e o outro testamenteiro do Sr. Germer, Frederic Mellinger, proibira a Sra. Germer categoricamente de nomear o Suíço para a posição de C.E.O. Voltaremos a isto mais adiante nesta história.

Porém, uma vez que o Suíço se desqualificou faz muito tempo (e eu devidamente o preveni mais de uma vez), estou disposto a aceitar você como C.E.O., e assim declaro. Não pense, porém, por um momento, que sua autoridade me obriga. Eu habito em minhas próprias mansões, como você deveria saber.

É impossível dizer se este último parágrafo animou Grant; se ele ainda tinha qualquer senso de perspectiva, ele deve ter pressentido que no momento em que Motta descobrisse que ele havia sido expulso da Ordem este "reconhecimento da sua autoridade" seria revogado. A própria ressalva implicada nas últimas duas sentenças deveria ter sido aviso suficiente; pois se ele realmente fosse digno da posição de Cabeça Externa da Ordem, a admissão de sua autoridade por Motta teria incluído Motta.

Motta, claro, sabia que ele mesmo era a Cabeça Externa escolhida por Frater SATURNUS; mas como ele disse no tribunal em Maine, quando foi finalmente forçado a admitir em público que é o Frater Superior: "Eu não estou interessado em poder ou em títulos, e estou muito mais interessado em ver a O.T.O. de pé, trabalhando harmoniosamente, construtivamente, do que em ser chamado de Cabeça Externa da O.T.O. Eu tenho evitado me chamar de Cabeça Externa da O.T.O. porque sei que muitas outras pessoas aspiram ao título, e se um deles pudesse ter me mostrado que ele ou ela está capacitado neste momento para assumir o Cargo, eu alegremente teria deixado que ele ou ela assumisse. Por isto eu tenho evitado usar as palavras Cabeça Externa da Ordem referindo-me a mim mesmo. Eu preferiria muito mais estar fazendo outra coisa (...). Eu queria cuidar da minha própria vida e trabalhar na A\ A\ , que é o que eu queria fazer desde o início, a qual está completamente á parte de grupos; trabalho pessoal; e eu queria escrever para ganhar a vida e ser independente. Eu não gosto das responsabilidades deste cargo, mas elas são minhas. Eu realmente preferiria estar fazendo outra coisa, mas eu ‘tenho promessas a cumprir, e milhas ainda antes de dormir’."

(A referência é a um lindo poema do poeta americano Robert Frost.)

Para que os leitores possam abarcar esse complexo, incrível labirinto de mentiras e imposturas, eles devem se lembrar de que durante todo esse tempo a Sra. Germer, sem o conhecimento de Motta, mas com o pleno conhecimento de Grant, Symonds, Weiser, Metzger, Regardie, Schlag e (como veremos) Gerald Yorke, estava lentamente morrendo de fome na Califórnia, à porta, por assim dizer, de todos os ex-membros da ex-Loja Ágape.

Motta não sabe se naquela época Grant e Symonds enviaram cópias de sua correspondência com ele para os outros ladrões; mas referências à tendência de Motta de evitar publicidade escandalosa sobre a O.T.O. foram mais tarde feitas por McMurtry quando ele oodia saber da atitude de Motta apenas se tivesse lido as cartas de Motta a Grant. O fato de que o processo iniciado na Califórnia contra Motta incluir Grant e Regardie (mas não Symonds) sugere que eles todos estavam em contato, e extremamente preocupados com a possibilidade de que uma Cabeça Externa poderia subitamente aparecer e protestar contra a sua conduta vergonhosa.

De qualquer forma, depois da carta de Motta a Grant citada acima, que aparentemente dava carta branca aos vigaristas para roubar e mentir, as edições piratas se tornaram mais numerosas e mais freqüentes.

23 de dezembro de 1971 e.v.: Helen Parsons Smith publica uma edição pirata dos versos de Crowley sobre o Li Djing, erroneamente chamando-os de Chi Li.

4 de outubro de 1972 e.v.: Israel Regardie publica uma edição pirata de A Visão e a Voz, misturando seus comentários idiotas aos de Crowley sem o mínimo pejo, e sem distinguir para os leitores quem escrevera o quê.

E então uma bomba, com resultados inesperados para todos os ladrões envolvidos: em alguma data do início de 1973 e.v., "Francis King" publicou sua edição pirata de Os Rituais Secretos da O.T.O., impressos na Inglaterra por C. W. Daniel — nome judio.

Tivessem eles sabido, esta publicação seria o ponto final para os ladrões; mas algum tempo ainda passaria antes que Motta se tornasse cônscio dela. Ele estava extremamente ocupado com o manuscrito de sua proposta edição de Os Comentários de AL, estava pesquisando Liber CCXXXI e estava produzindo um filme no Brasil (com desastrosos resultados financeiros: os críticos dos dois maiores jornais do país malharam o filme de tal forma que levou dez anos para se pagar).

As críticas nada tinham a ver com o filme, que não era nenhuma obra prima, mas era bastante decente. Os críticos — ambos os quais Motta conhecia pessoalmente antes e depois do golpe — eram católicos romanos, ostensivamente esquerdistas, e ambos informantes da Junta. Mas ninguém pode trabalhar para os meios de comunicação de massa no Brasil se não for uma coisa ou a outra, ou então sionista.

20 de março de 1973 e.v.: Grady McMurtry e Phyllis Seckler, agora marido e mulher, "registram os direitos" a material por Crowley em sua publicação "In the Continuum".

Um ano depois, em março de 1974 e.v., Samuel Weiser, Inc. repetiu o roubo de C. W. Daniel e imprimiu "Os Rituais Secretos da O.T.O."

Nessa época, Mota já estava negociando a publicação de Os Comentários de AL por Weiser, e começara sua correspondência com James Wasserman, editor e porta-voz de Weiser. Com o benefício dos anos, é óbvio da correspondência entre os dois que a maior preocupação de Donald Weiser era averiguar quanto Motta sabia sobre a situação dos direitos autorais de Crowley e qual era a posição de Motta na O.T.O. Deve ter sido um alivio para ele perceber que Motta não sabia absolutamente nada sobre os direitos autorais (nem lera o testamento de Crowley!) e parecia inseguro quanto à sua posição na O.T.O. Em uma das primeiras cartas, Wasserman perguntou a Motta qual o endereço da Sra. Germer na Califórnia!

Considerando-se que a Sra. Germer manteve o mesmo endereço de 1960 e.v. até morrer em 1975 e.v., e considerando-se a admissão de Wasserman em juízo que Donald Weiser escrevera a ela, obviamente a intenção da pergunta era estabelecer as relações de Motta com a Sra. Germer, não endereço dela, que Weiser sabia muito bem — não afirmara seu cunhado Fred Mendel a Motta que ele escrevera à Sra. Germer, e que ela lhe respondera?...

Infelizmente para Weiser e Wasserman, tais manobras só são unilaterais se uma das partes é um total imbecil. Motta pode perceber que 1) Crowley se tornara subitamente muito popular e 2) trinta e quatro das suas obras haviam sido impressas por diversas pessoas e estavam sendo circuladas. A casa Weiser estava enriquecendo vendendo todas elas. Tendo obtido uma lista das piratarias de Wasserman, Motta notou "Os Rituais Secretos da O.T.O." entre os itens, e entre março a agosto de 1974 e.v. deve ter encomendado este livro de Samuel Weiser, Inc. Foi lendo a introdução (escrita sob a orientação de Gerald Yorke!) que Motta soube, finalmente, que o Sr. Kenneth Grant, "Cabeça Externa da O.T.O.", havia sido expulso da Ordem por Frater SATURNUS em 1954 e.v. Motta nunca mais se comunicou com Grant.

Examinando "Os Rituais Secretos da O.T.O.", Motta viu que eram quase cópias exatas dos manuscritos que o Sr. Germer lhe dera para ler em Barstow, Califórnia; com certas diferenças sutis mas significativas. As Palavras de Passe estavam defeituosas e, pelo menos em dois casos, eram falsas; alguns dos Toques haviam sido mudados, e os Rituais dos Graus mais altos estavam faltando.

Os primeiros capítulos do livro, com um histórico da O.T.O., foram no entanto muito úteis a Motta. Eles concordavam quase por completo com os fatos, tais quais Motta os conhecia. "King" obviamente obtivera seus dados de uma fonte competente.

A fonte era Gerald Yorke, que por motivos seus queria ver a O.T.O. destruída.

Em maio de 1974 e.v., Stephen Skinner publicou sua terrivelmente inepta pirataria da Astrologia de Crowley; quase simultaneamente, Grant e Symonds publicaram uma edição de Livro Quatro Partes I, II e III em que novamente declarações falsas foram feitas sobre liderança da O.T.O. Isto foi publicado sob o título de "Magick".

A 15 de agosto daquele ano, Motta finalmente escreveu outra carta à Sra. Germer:

Cara Sra. Germer:

Faze o que tu queres há de ser tudo da Lei.

Recentemente, por motivos que nada têm a ver com interesse pessoal na senhora, eu reli as quatro cartas que recebi de si nos últimos quinze anos. Sua condição mental, sua completa falta de espírito prático, e seu desafeto por mim pulam aos olhos do leitor em cada página. Sua falta de confiança no julgamento de seu marido, quando ele me nomeou seu herdeiro mágico em seu testamento (ou assim a senhora me levou a pensar) tem sido do maior dano possível para mim e para Télema, como não duvido a senhora, no fundo do seu coração (se é que a senhora tem coração), teria desejado.

Gozo de boa saúde, e tenho plena consciência da minha Autoridade e dos meus deveres. Sei que esta notícia provavelmente não vai lhe agradar, mas eu vivo para realizar o meu Trabalho, não para agradar a senhora; especialmente quando a sua conduta me leva a crer que sua felicidade só seria completa se eu ficasse louco ou morresse. Eu tenho algumas perguntas a lhe fazer, e para variar gostaria de ter uma resposta rápida, educada e coerente.

1. Primeiro, duas edições espúrias de Liber Aleph, utilizando a minha organização, meu índice, minha introdução e meu texto corrigido foram recentemente impressas na Califórnia. Eu gostaria de saber se isto foi feito com o consentimento da senhora, e se lhe pagaram direitos autorais pela venda dessas edições.

2. Os Srs. John Symonds e Kenneth Grant, na Inglaterra, estão imprimindo primeiras edições de material por Crowley que eu havia levado a crer, das palavras da senhora, que seu marido lhe legara no seu testamento. Eu gostaria de saber se os Srs. Symonds e Grant estão fazendo isso com seu consentimento, e se lhe estão pagando direitos autorais pela venda desses livros.

3. Edições de "A Visão e a Voz" e de "Cartilha Mágica" foram publicadas nos EE.UU. Eu gostaria de saber se essas edições foram publicadas com o consentimento da senhora, e se a senhora está recebendo direitos autorais por elas.

Eu não sei se a senhora compreende o significado da expressão direitos autorais. Significa que, por lei, quem quer que publique material que é da propriedade de outra pessoa tem obrigação de pagar ao proprietário ou proprietária uma comissão sobre a venda de cada livro. Esta comissão é usualmente estabelecida de antemão por ambas as partes, e pode chegar a quinze por cento do preço de capa. Isto significa, por exemplo, que se um livro é vendido por dez dólares o dono dos direitos autorais recebe um dólar e cinqüenta centavos de comissão. Se bem que isto parece pouco, multiplique pelo número dos livros, digamos mil, e a senhora tem mil e quinhentos dólares que devem ser pagos ao dono dos direitos — neste caso, a senhora.

Se essas edições estão sendo feitas com o seu consentimento, nada mais há que dizer, contanto que seu consentimento tenha sido pedido, e dado por escrito.

Se essas edições estão sendo feitas sem o seu consentimento, a senhora está causando o maior dano possível à memória do seu marido se não protestar formalmente contra o roubo que está sendo praticado contra a senhora. O Sr. Karl Germer herdou todos os direitos autorais de Crowley, e os legou à senhora em seu testamento (ou assim fui informado pela senhora; corrija-me se estou enganado). Ao não lutar pelos seus direitos, a senhora indiretamente afirma que seu marido não tinha direito aos escritos de Crowley, e que a senhora não respeita nem a memória dele nem sua última vontade.

Já que eu mesmo fui mencionado no testamento (uma cópia do qual a senhora nunca me enviou, o que para a senhora é normal!), eu sinto que descuidando-se da memória dele desta forma a senhora mina a minha própria posição e Autoridade Espiritual como filho místico dele. Mas talvez esta tenha sido sempre a sua intenção?

Suponho que a senhora não manteve cópias das cartas que me escreveu, já que a senhora é uma mulher relaxada em tudo, ou era, pelo menos. Eu terei prazer em lhe enviar cópias, para que a senhora possa contemplar sua própria face...

... Seu ódio por mim a tornou cega a ponto da tolice. Eu tenho uma carta datada de 1967 e.v. em que a senhora me diz que informou a alguém na Inglaterra (quem, a senhora não teve educação para me dizer) de que eu chefiava uma Loja da O.T.O. no Brasil na qual eu pregava a Lei (que Lei? A lei mosaica?...). Mas a senhora se esqueceu de que eu não tinha nenhum ritual da O.T.O., e que a senhora recusara, faz anos, batê-los à máquina para mim e enviá-los a mim, acusando-me de querer fazê-la trabalhar para mim!

Pena que a senhora não trabalhou para mim. Uma mulher preguiçosa como a senhora, com demasiada imaginação e demasiada vaidade, deveria encontrar alguma tarefa útil para ocupar seu tempo.

Em suma, Sra. Germer, estou farto de tentar tratá-la como Irmã — a senhora não merece isto — ou como uma mulher decente — a senhora consistentemente me provou que não é decente, comigo pelo menos. Mas por amor ao meu Trabalho, e somente por amor ao meu Trabalho, estou agora tentando obter uma resposta sensata de uma mulher que me detesta tanto (Pergunto-me por que?... Haverá frustração sexual por trás disso?...) que ela finalmente me infeccionou, completa e definitivamente, com seu desafeto.

Amor é a lei, amor sob vontade.

M.R.Motta

Quando James Wasserman se hospedou com Motta no Brasil, Motta lhe deu uma cópia desta carta para ler. Wasserman disse, "Você foi muito duro com ela!"

É engraçada a maneira como funciona a mente de macacos falantes. Wasserman servia um mentiroso e ladrão, e era ele mesmo um ladrão e um mentiroso. Durante dez anos seu dono estivera ganhando dinheiro com os direitos autorais de Crowley, e deliberadamente deixando a Sra. Germer passar fome. Wasserman sabia disto; cooperara com isto. No entanto, ele se achava com o direito de criticar Motta por ser "duro" com a Sra. Germer quando a intenção óbvia da carta de Motta era ajudá-la de qualquer maneira que pudesse — sem, no entanto, afagar-lhe o ego.

Macacos falantes são engraçados. Você pode roubar deles, pode explorá-los, pode mentir-lhes, você pode até fazer com que eles morram por você — contanto que você tenha muito cuidado em não lhes apontar a macaquice e não tentar fazê-los evoluir a ponto de se tornarem seres humanos. Mostre a eles como seus egos são mesquinhos e você imediatamente é um charlatão — ou, até, um "Irmão Negro"! Não admira que os "maharishis" enriqueçam enquanto verdadeiros Mestres morrem à míngua.

Essa carta, como já dissemos, foi devolvida a Motta sem resposta. Tinha sido aberta e lida; mas a letra no envelope de devolução não era a letra da Sra. Germer.

Na ocasião em que recebeu a carta de volta, Motta não notou isto: ele ainda não estava suficientemente paranóico! Ele pensou que ela simplesmente decidira, uma vez mais, não lhe responder. Já que ela não queria nada com ele, ele decidiu entrar em contato com a única pessoa restante que parecia ter mantido uma relação decente com Aleister Crowley e Karl Germer.

A 16 de outubro de 1974 e.v., Motta escreveu pela primeira vez a Gerald Yorke.

 

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