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A TERRA

 

A criança de milagre saudando o mundo.

Eu estendo minhas mãos para as folhas e chapinho no orvalho; eu salpico orvalho sobre vós como beijos. Eu me ajoelho e aperto a grama da terra negra contra o peito; eu esmago a terra de encontro aos meus lábios como se ela fosse um bago de uva. E o vinho de Deméter me enrubesce as bochechas: elas queimam com alegria da juventude.

Por que haveria eu de saudar o mundo? Porque meu coração está a rebentar de amor pelo mundo. Amor, digo eu? Por que não ardor? Não é ardor força, e receio, e a fome que apenas o infinito pode satisfazer?

E por que me chamo de criança de milagre? Porque entrei uma segunda vez no útero de minha mãe, e eis-me nascido. Porque à experiência da idade viril voltou a paixão, mesmo a tolice, da adolescência; com todo o seu orgulho e pureza.

É por isto que vós me vedes estendido sobre a espessa relva úmida, inapagável; ou esponjando-me no gordo e negro solo fértil.

Agora, a maneira do milagre foi esta: No começo é dada a um mancebo a visão de sua companheira. Esta ele deve daí em diante seguir cegamente; e muitos são os encantos e desencantos. Através destes a visão empalidece; mesmo a fome dele se esgota, a não ser que ele seja verdadeiramente Eleito. Mas no fim pode ser que Deus lhe envie a outra metade daquele Sinal do Paraíso. Então, se o homem manteve aceso o fogo santo, talvez com muito combustível falso, aquele fogo instantaneamente esbraseará e encherá o templo da alma dele. Com sua insistente energia, este fogo destruirá até a memória de todos aqueles fogos de pântano que vieram saudá-lo; e o sacerdote se curvará na glória, e agarrará o altar com suas mãos, e baterá sobre ele com sua fronte sete vezes. E este altar é o altar de terra de Deméter.

Então, compreendendo todas as coisas à luz daquele amor, ele saberá que isto é amor: que isto é a alma da terra, que isto é fertilidade e compreensão, o segredo de Deméter. Não — mais até — o Oráculo talvez fale no coração dele, e prediga ou esboce os mistérios maiores de Perséfone, da Morte, a filha do Amor.

Aqueles, também, que assim renascem compreenderão que eu que escrevo estas palavras estou estendido na terra molhada no dia da Primavera. É noite, mas o mar murmura de Perséfone, tal como as estrelas indicam Urânia, cujo mistério é o terceiro, e além. Meu corpo está absorto em aroma e toque; pois o fogo consumidor de minha visão acabou em cegueira, e em minha boca permanece apenas o ressabio de um beijo infinito. A terra úmida queima meus lábios; meus dedos buscam em volta das raízes da relva. A vida da terra mesma é a minha vida: eu me alegrarei de ser enterrado na terra. Que meu corpo se dissolva no dela, apodreça em seu revigorante alambique. Aquele que se deixa encerrar num ataúde, e assim permite que o separem do supremo abraço, nunca amou.

É da terra, noiva do sol, que toda força corporal deriva. Não é imagem figurativa que Antéo recobrava toda a sua força quando tocava a terra. Não é pedantismo e loucura dos hindus, os quais, temendo o ardor físico, isolam seus acólitos da terra; não é futilidade a doutrina deles de Prana e do Tamo-Guna. Não é mera cura por fé, essa higiene do Padre Kneipp; e seus fracassos são aqueles que retém decoro e melancolia: que seguem a letra, e não o espírito; frios pisadores sobre a terra, em vez de amantes apaixonados da sua força.

Não é acidente mitológico que os Titãs combateram os Deuses, e em Prometeu os derrocaram.

Foi quando Canuto fracassou em repelir o mar que sua dinastia perdeu para aquela do Normando Guilherme, quem pegou a Mãe Terra de mãos ambas.

Quando eu era criança, eu caí; e as cicatrizes da terra estão em minha testa nesta hora.

Quando eu era criança, machuquei-me pela explosão de um jarro de pólvora enterrado; e as cicatrizes da terra estão em minha face nesta hora.

Desde então tenho sido o amante da terra, que assim rudemente me cortejou. Muita noite dormi eu sobre o seu seio nu, em florestas ou geleiras, sobre grandes planícies ou despenhadeiros solitários, no calor e no frio, em bom ou mau tempo; e meu sangue é o sangue da terra. Minha vida é dela, e tal como ela é uma centelha arremessada do brilho regirante do sol, assim eu me sei uma centelha de Deus infinito.

Buscai a terra, e o céu vos será acrescentado! Voltai à nossa mãe, enterrai a pá brilhante no seu útero! Marcai-a com sulcos da lavoura vossa, ela apenas sorrirá mais terna!

Que vosso suor, o suor do vosso trabalho, que é vossa paixão, pingue como benção do Alto sobre ela; ela retribuirá com grão e vinho. Também, vossa esposa será desejável aos vossos olhos todos os dias de vossa vida; e vossa prole será forte e bela, e a benção do Altíssimo será sobre vós.

Então, deixai vosso agarro relaxar-se na saciedade da morte; vosso peso ocupará a terra, e os pequeninos da terra festejarão convosco até que a rosa insira sua raiz em vosso peito. Então vosso corpo será um novamente com a mãe, e vossa alma uma novamente com o Pai, como está escrito no Livro da Lei.

Tudo isto me foi ensinado por ela cuja pureza e força são mesmo como as da terra, escolhida antes da fundação do Tempo. Leoa com leão, possamos nós passear à noite entre as ruínas de grandes cidades, quando, fatigados de gozo demasiado intenso mesmo para a nossa imortalidade, nos alheiarmos da fragrância e fertilidade da Terra. E ao nascer do Sol, retornaremos aonde os vales povoados nos chamam: onde, bronzeados e leves, nossas crianças cantam em voz alta ao enfiar a enxada.

Glória seja à Terra e ao Sol e ao santo corpo e alma do Homem; e glória seja ao Amor, e ao Pai do Amor, a secreta Unidade das coisas!

Glória ao Relicário dentro do Templo, e ao Deus dentro do Relicário; glória à Palavra, e ao Silêncio que lhe deu nascença d’Ele que está além do silêncio e da Fala!

Também, graças no Altíssimo pela Dádiva de todas estas coisas, e pela jovem em que todas estas coisas são achadas; pelo santo corpo e alma do homem, e pelo sol, e pela terra. AMEN.

 

Aleister Crowley

 

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